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por Jovem Sobrevivente

Este texto foi produzido por um jovem que cumpriu medida socioeducativa no Degase RJ (Departamento Geral de Ações Socioeducativas), que decidiu relatar os episódios de tortura que vivenciou e sofreu enquanto esteve em um dito Educandário.

Para o jovem sobrevivente, aquilo que chamam de educandário é o sistema prisional para adolescentes.

Por questões de segurança não colocaremos o nome do jovem, o local e o ano da medida socioeducativa.

Estive cumprindo medida socioeducativa no Educandário X e vim falar que aquilo não socializa.

Passei 3 anos da minha vida privado de liberdade, eles( o Estado)falam que o sistema é para reabilitar os jovens, para ser uma pessoa melhor, mas  nunca vi tantas covardias feitas neste espaço.

Eles ( agentes) colocam  os alimentos nas suas partes íntimas, botam os queijos em suas partes, depois mandam nós comer, mijam no café da manhã e no suco do almoço.

Eles mandam você entregar os amigos , saber como estão as coisas nas celas e depois cagoetar, quem não topa é torturado.

Eles mandam você  lavar os carros deles e se não lavar eles dão soco no seu saco, bate na  sua cara, fazem covardia com choque no saco, mandam você entregar seu amigo de cela e com isso te queimar na sua comunidade.

Obrigam você a jogar bolar a noite com eles quando estamos tentando dormir, não respeitam nossas famílias ,falam da sua namorada, irmã.

As qualidades das quentinhas são péssimas, eles cospem dentro de algumas comidas, e falam que ninguém vai morrer por causa disso. Se você falar ou se rebelar, vai direito para o porquinho e eles te deixam pelado no frio, com fome e sem coberta pra dormir e ainda jogam água sobre seu corpo.Te  algemam e ainda desferem socos na sua barriga, manda você imitar as falar deles para você ficar desmerecido frente aos colegas de cela e assim ser visto como menos homem.

E não param por aí, mandam você abrir a boca pra colocar coisas sujas e falando que você nunca vai ser ninguém, falam que você é um merda e que nunca vai mudar de vida. A  escola do sistema é péssima, nunca ensinam nada. 

Os jovens que já passaram pelos educandários para cumprimento de medidas socioeducativas, não vão mudar, porque do jeito que é o sistema, você entra de um jeito e sairá de outro muito pior.

Não existe apoio do Estado, os jovens são violentados pelos agentes diariamente.Me lembro do pau que eles batiam em nossas mãos.

Aguentar tudo isto, não é fácil para ninguém. 

Passar por lá e o mundo achando que sairá diferente de tudo, é uma farsa, só pra ganhar crédito com os ricos.

O governante do estado nunca olhou para esses casos e quando saímos não temos oportunidades de cursos e nem de trabalho. A verdade é que não temos muitas oportunidades na vida pois somos preto, por isso que muitos jovens voltam para vida do crime. Talvez se tivéssemos oportunidades não teríamos tantos jovens negros assassinados. 

Os governantes todos que passam no poder, nunca olham para isso, só sabem criticar as favelas, mas não sabem o que os jovens passam nas favelas. Olhem para as favelas, gerem projetos, trabalhos , não façam operações policiais para nos matar, pois nós somos o presente e o futuro de um mundo melhor e com paz.

Este texto retrata o que é o Estado reforçando o posicionamento e a construção institucional da IDMJR de lutar pelos fim das prisões e de espaços como esses das ditas  medidas socioeducativas. Também gostaríamos muito de saber onde está o ministério público quando falamos destas violações? 

Este texto mais uma vez ressalta que não há luta contra o racismo, sem luta contra o capitalismo.

” O capitalismo precisa de desigualdades, e o racismo fornece-as”. 

(RUTH GILMORE)

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