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por IDMJRacial

Antes de refletirmos a partir desta indagação uma afirmação é necessária: fomos e continuamos sendo colonizados por cristãos que construíram uma ideia de mundo e sociedade linear e a partir de dualidades como céu e inferno, bem e mal , certo ou errado , e dizemos isto, pois nossa reflexão parte de um outro processo de entendimento de mundo circular, logo não estamos aqui nos posicionando por a ou b, mas apontando que a máquina de violar direitos é o Estado.

Nos últimos anos, operações policiais direcionadas ao combate ao Comando Vermelho têm sido apresentadas como parte de uma estratégia de fortalecimento da segurança pública ou quase sempre como a única. No entanto, uma análise mais cuidadosa revela que essas ações podem produzir efeitos complexos — e até contraditórios — no território fluminense.

O enfraquecimento de uma facção específica não significa, necessariamente, a redução da violência. Em muitos casos, o que ocorre é uma reorganização do controle territorial, abrindo espaço para que outros grupos armados ocupem essas áreas. Entre esses grupos, destacam-se as milícias, que operam com lógica diferentes muitas das vezes, mas igualmente baseada no controle armado, na exploração econômica e na limitação da liberdade dos moradores.

Essa dinâmica levanta uma questão central: as operações estão, de fato, promovendo segurança ou apenas deslocando o poder entre grupos armados ? 

Historicamente, as milícias surgiram com um discurso de “proteção” das comunidades, mas rapidamente se consolidaram como estruturas criminosas que exploram serviços básicos, como transporte, gás, internet e até moradia. Mesmo com o tráfico adaptando sua metodologia e se aproximando muito das milícias, as milícias se infiltraram no cotidiano da população, estabelecendo um controle mais amplo e duradouro muito a partir da consolidação e ocupação de instituições públicas do executivo(secretarias) e legislativo(casas legislativas).

Nesse contexto, operações focadas exclusivamente no combate a uma facção e ao varejo de drogas podem, ainda que indiretamente, favorecer a expansão miliciana e suas conexões e redes com o Estado.

É importante destacar que não se trata de defender qualquer grupo ou facção como já mencionado no início do texto, mas de reconhecer que políticas de segurança baseadas apenas na repressão seletiva podem falhar em produzir resultados sustentáveis. 

A fragmentação do poder  não elimina o problema — apenas o transforma.

Uma política pública eficaz precisa produzir desinvestimento das polícias com o remanejamento de orçamento para políticas que promovam vida e não confrontos, chacinas e massacres como o da Penha e recentemente nas favelas de Santa Teresa.

Além disso, o debate público precisa amadurecer. Reduzir a discussão a uma “guerra entre o bem e o mal” impede a compreensão das estruturas do Estado que sustentam essas organizações e limita a construção de soluções reais.

O Estado capitalista racial opera as violências de forma seletiva e estruturada, articulando mecanismos de controle que incidem de maneira desigual sobre determinados corpos e territórios. Nesse sentido, as operações policiais produzidas a uma determinada facção do varejo de drogas – contribui para a manutenção de um ciclo no qual a violência não é eliminada, mas administrada. As operações policiais, ao desestruturarem determinadas organizações criminosas, frequentemente não alteram as condições que sustentam essas economias. Em vez disso, criam instabilidade momentâneas que podem resultar na reorganização do controle territorial por outros grupos armados. Por isto  a segurança pública precisa ser compreendida não apenas como um campo técnico – operacional, mas como parte integrante das dinâmicas de poder do Estado Capitalista Racial. O varejo de drogas e as milícias precisam ser compreendidas como braço do Estado e não como algo paralelo.

Portanto, mais do que enfraquecer um grupo específico, o verdadeiro desafio que temos na discussão da segurança pública no Rio de Janeiro é romper o ciclo de substituição de poderes que se relacionam e são Estado, por uma gestão do território que partam das organizações e movimentos sociais comunitários que produzem vida cotidianamente nas favelas. A médio e longo prazo precisamos construir e agir na perspectiva de um projeto abolicionista.

A pergunta que permanece é: estamos avançando rumo a uma sociedade mais segura ou apenas assistindo à troca de controle sobre os mesmos territórios?


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