
por Patrick Melo
Entre os dias 07 a 09/10 aconteceu o 2º Encontro de Juventudes de Terreiros promovido pelo Centro Cultural de Tradições Afro Brasileiras Yle Axé Egi Omim, coordenado pela Iyalorixá Wanda de Omolu. A IDMJR apoiou o evento e esteve participando diretamente fomentando a discussão sobre a Violência do Estado a partir do seu relatório Guerra aos Pretos.

O encontro, em sua segunda edição, reuniu mais de 15 jovens de diversos municípios do Estado do Rio de Janeiro, de múltiplos coletivos e matrizes religiosas, trabalhou com temáticas consideradas importantes para as comunidades tradicionais de matrizes africanas, e que contribuem de forma ampliada para a sociedade, colaborando com a luta antirracista, pela sobrevivência do povo negro e dos povos afropindorâmicos, desde a reflexão sobre as memórias de luta e resistência ancestrais, provocadas a partir da história de Esperança Garcia, até agrofloresta, finanças regenerativas, violência Estado e saúde mental.
A Iniciativa Direito a Memória e Justiça Racial esteve presente no encontro e apresentou em oficina a publicação Guerra aos Pretos – Relatório Sobre Drogas e Armas na Baixada Fluminense, provocando nos jovens a reflexão sobre o cenário de ataque frontal do Estado aos territórios na Baixada Fluminense, por sua ação ou omissão diante das violações, assassinatos, alto índice de encarceramento e atuação e expansão das frações de milícias.
O encontro contou com um público jovem da faixa etária de 15 a 29 anos, majoritariamente negro, e durante a atividade da IDMJR, foi possível materializar o quanto o Estado tem sido de fato eficiente e presente em territórios periféricos, com a política de terror, adoecimento e morte. Juam Ferreira, que é morador de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, exemplificou com uma poesia que pensava sobre a polícia e escreveu em poesia o seguinte:
“Quando a Bala atravessa o cano em direção ao seu alvo
Já não há arrependimento.
Corpo ao chão, sangue jorrando, mãe em lamento.
Eu não gosto de polícia, E nem poderia
Atravessado por realidades e afetos
que se cruzam feito balas em meio à correria
Eu não gosto de polícia
E por isso clamo ao meu protetor
Se um dia em uma rua deserta
Que seja apenas um assalto, o ‘perigo maior’
E não uma abordagem de averiguação, Padrão
de um Estado perverso por meio de seu feitor
Queria Falar das alegrias da Baixada
Dos sorrisos, gargalhadas
E o que há de mais novo
Mas chega a mensagem
uma bala que invade
mais uma amizade
e essa nem é de coco”
(Juam Ferreira)
Um jovem morador de Angra dos Reis trouxe sua preocupação com a expansão das frações de milícias na Baía de Ilha Grande. O território que se encontra em controle desses grupos passa por um processo de alerta pela presença de comunidades tradicionais, quilombos e povos originários, por entender que o projeto das milícias segue alinhado com o apagamento de qualquer grupo que se coloque em oposição às violências Estado e ao processo colonial e capitalista.
A justiça também foi um tema abordado, a estudante Larissa Matos, recém chegada ao Rio de Janeiro e moradora da zona norte do Rio de Janeiro fez uma provocação ao grupo questionando a quem a justiça serve. “Que outras concepções de justiça podem servir de norte para a construção de outra sociedade?”
A sensibilização dos jovens para a leitura do relatório Guerra aos Pretos foi de extrema importância para que eles se localizassem e localizassem seus territórios e vivências de forma objetiva dentro do cenário atual. O jovem Kawan Lopes provocou com angústia sobre a apresentação do relatório, arte-educador e morador da Zona Oeste do Rio de Janeiro, lamentou o fato de se sentir perdido sobre quais caminhos tomar para que a ponta do fuzil não chegasse a seus educandos.
Em sua fala final, Iya Wanda de Omolu relatou suas preocupações com as juventudes e porque a importância de um encontro no terreiro, da formação de redes, de conhecer e perceber as histórias de nossos ancestrais para permanecer vivos, vivas e “de pé”!
“Eu fui parar na Ilha de Guaratiba e fiquei por 18 anos, no meio do mato. Lá eu aprendi a apurar o meu olfato, o meu olhar e a minha fala. Esse é o segundo encontro de jovens, o primeiro foi em 2010. Lá atrás a gente já falava em racismo religioso, os temas não mudam pra gente! Mas hoje eu ouvi falas aqui que me contemplaram, que é a mudança de postura, a afirmativa de você saber quem você é, para onde você vai, porque tem muitos dos nossos que estão perdidos! Então, eu sei que tem a milícia, eu sei que tem o fuzil e que sempre foram apontados pra gente, não mudou! Mas o que está mudando? Hoje a gente consegue ir para espaços de construção de pensamento, de reflexão. A minha preocupação é de como vocês (jovens) estão lá, é com aquilo que vocês trazem de volta para injetar no povo de vocês, essa é minha preocupação! Porque tem gente que tem vergonha de dizer: eu não li isso, eu não li aquilo. Mas ler o nosso livro preto, é que é fundamental.”
Giselle Florentino, coordenadora da IDMJR, encerrou falando sobre a importância do relatório Guerra aos Pretos hoje.
“Este é o primeiro levantamento sobre drogas e armas da Baixada Fluminense, é vergonhoso falar isto. O território mais negro e com os piores índices de operações policiais letais, feminicídios, desaparecimentos forçados, encarceramento e outras violências nunca teve um levantamento sobre isso. Nosso relatório demonstra a real intenção do Estado com a Guerra às Drogas, que é matar pretos. Nossa intenção é que este se torne um instrumento de incidência política para todos. Não dá mais para esperar soluções do Estado, seja para reparação de violações, seja para produção de dados sobre a situação do povo negro na Baixada Fluminense.”
Se você ainda não viu nossa publicação Guerra aos Pretos – Relatório sobre Drogas e Armas na Baixada Fluminense, acesse agora:
*Matéria Produzida pelo Dofono de Oxossi Patrick Yle Axé Egi Omim e também Assessor de Comunicação da IDMJR.