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ENTREVISTA COM IBIS PEREIRA: POLICIAL É CLASSE TRABALHADORA?


Por Monique Rodrigues

Nesse mês de maio, sobretudo imersos à Pandemia do Covid-19, a ação reflexiva sobre trabalho, classe trabalhadora, e Estado, tem se alinhado aos debates sobre as violências de Estado, que historicamente vitimiza com maior impacto a população periférica, preta e favelada.

O Estado que formula e estrutura essas opressões atua por meio de instituições, sendo uma delas a própria Polícia, que sob o véu da ação da Segurança Pública promove barbáries cotidianas. Porém, nesse mesmo cenário figura a pergunta: Policial é classe trabalhadora?

A Iniciativa Direito à Memória e Justiça Racial, entrevistou o ex- comandante da PMERJ IBIS PEREIRA, que apresentou sua perspectiva sobre essa reflexão.  Devido ao denso acumulo filosófico e prático do Ibis Pereira no campo de Segurança Pública, a IDMJR optou por reproduzir a entrevista a partir de tópicos temáticos.

“Meu nome é Ibis Pereira, eu nasci em 63, por isso que meu email tem esse 1963, que é pra eu me lembrar o quanto tempo de vida eu ainda tenho nesse planeta. Acho importante você pensar na morte todo dia, né. É uma maneira da gente se blindar do medo da morte e se lembrar do tempo todo da nossa pequenez. Na atividade que eu escolhi, que é a polícia, a polícia lida com força né, portanto um profissional que lida com força ele fica o tempo todo muito próximo de ultrapassar o limite e se exceder. Morei muito tempo próximo da baixada, em Anchieta, do lado de Olinda, e isso pra mim foi muito importante porque eu sou muito católico,muito religioso mas o meu cristianismo é diferente desse que tá por aí, eu encontrei a Teologia da Libertação nos meados dos anos 70, e estar próximo da baixada foi muito importante pra mim.”

A relação com a Igreja

“A nossa igreja, apesar de ser uma igreja da diocese do Rio de Janeiro, que nunca levou a Teologia da Libertação a sério, sempre foi muito conservadora, a gente tinha uma proximidade muito grande com as igrejas da baixada, e lá acontecia diferente. Dom Adriano, entendendo a essência e o propósito do cristianismo e o que isso significa pra nossa vida: um compromisso com o reino de Deus.

O cristão tem que ser um militante da justiça, da justiça social. E isso tem consequências sociais, que é a nossa igualdade. Então a gente tem que ter um compromisso com a sociedade fundada na igualdade e na soberania do povo. 

“O cristão tem que ser um militante da justiça, da justiça social”.

(Ibis Pereira)

E eu ia lá pregar o cristianismo, mas pra você pregar o cristianismo você tem que estar lá juntos, e ter compromisso a melhoria de vida daquelas pessoas que estão lá. Mas, a gente ia lá também falar de política, construir junto com as pessoas. Era uma experiência maravilhosa a da Teoria da Libertação, por isso, que os setores conservadores da igreja destruíram isso, e por isso que agora o Papa está sendo perseguido por boa parte da militância católica, que não entenderam o que é cristianismo”.

Universidade e a Política

“Eu era aluno da UFRJ, e o primeiro ano de eleição, aqui no Rio de Janeiro a gente teve uma eleição maravilhosa, épica, foi o ano que eu conheci e me apaixonei por uma figura fantástica que é o Brizola.

Um dia todos os candidatos foram no auditório, se apresentar, dizer o que pretendia, e o Brizola foi, aí eu estava lá com 19 anos vaiando o Brizola, todos os alunos vaiavam o Brizola, porque o movimento estudantil daquela época era muito ligado ao MR-8, ainda aquela coisa do MDB, o populismo, porque a esquerda sempre foi muito dividida, e parte da esquerda nunca entendeu esse movimento de incorporação das massas, que é o trabalhismo.

A não ser o Partido Comunista, desde 1951, se aproximou do trabalhismo e nunca deixou o trabalhismo, então quando o Brizola voltou tinha aquele grupo dizendo “esse cara é um populista!” e a gente estava lá vendo a história entrar no auditório.

Uma coisa que me fascinou foi Brizola sendo vaiado por todo mundo e distribuindo acenos de mãos para as duas alas do corredor, indiferente aquele tumulto. Aí, ele sobe no palco, senta à mesa e começa a falar, e aí o meu mundo desabou. E você sabe o que é uma pessoa entrar vaiado por 200 alunos e sair aplaudido de pé?

“E parte da esquerda nunca entendeu esse movimento de incorporação das massas, que é o trabalhismo“.

Ibis Pereira

Uma pessoa começar a falar da história do nosso país desde as capitanias hereditárias, mostrando a máquina de triturar gente que a gente é. Naquele momento na fala do Brizola, eu que já vinha de uma militância pude ter uma percepção da história brasileira muito mais profunda, política sim, mas muito mais um mandamento muito mais religioso, vamos dizer assim, uma imposição de quem assumiu Jesus como seu modelo, eu passei a perceber que essas coisas de fato eram indissociáveis.

Então eu tive o prazer de entrar na polícia com Leonel Brizola governador, falando de direitos humanos para o crime, o criminoso, dizendo que o criminoso não perde a sua humanidade por ter cometido um crime, que uma pessoa que comete um crime não deixa de ser um membro da família humana, que precisa ser responsabilizado diante do que a lei estabelece.

Mas que, isso não nos dá o direito de torturá-lo, isso não nos dá o direito de estender a sua pena para os familiares, que precisam continuar sendo respeitados, que a casa mais humilde, ou o barraco mais humilde é habitação. É a casa de alguém e por isso por ser a casa de uma pessoa precisa ser respeitado, é sagrado.

Pra gente entrar em uma casa, ou a gente entra porque tem alguém precisando de socorro, ou a gente entra porque a pessoa autorizou, ou a gente entra porque tem uma ordem do estado. Se não for assim você não pode entrar. Se quem tá lá dentro é uma pessoa humana, aquele lugar é sagrado porque a pessoa humana é sagrada”.

A entrada na Polícia

“Eu entrei pra polícia quando eu tinha 20 anos, e entrei por absoluta necessidade de trabalho. Vinha de uma família muito pobre, perdi meu pai muito cedo, minha mãe me criou com muito sacrifício, trabalhava pra fora, lavava roupa, vendia bolo e conseguiu me dar uma educação.

E um dia eu achei que entrar para a polícia podia ser uma boa opção de emprego, porque a polícia é uma profissão que permite uma certa ascensão. Você tem um emprego fixo, um emprego onde você só é removido dele se fizer uma bobagem, e muito grande. Você já tem um soldo desde que começa a trabalhar, e portanto desde os primeiro momentos você já pode contribuir em casa com o que você ganha, era esse o meu objetivo. 

A polícia é uma instituição muito interessante, pra você ter uma ideia, a Escola de Formação de Oficiais da PM, foi criada em 1920, as primeiras turmas da polícia militar já tinham negros, estudando para serem policiais. Isso poucos anos depois da Lei Áurea.

“Então, a polícia sempre foi uma instituição com uma grande quantidade de negros, majoritariamente uma instituição negra, o que não significa dizer que ela na sua prática não seja racista”.

(Ibis Pereira)

Quando eu comandei a escola de oficiais, muitos anos depois, eu localizei uma foto lá que mostrava uma dessas turmas com negros estudando para serem oficiais, e coloquei na entrada do auditório para que os alunos pudessem ver aquilo. Achei que era uma maneira de trabalhar, para tentar desmontar esse racismo que atravessa a gente e que muitas vezes a gente reproduz sem perceber.

Quando o Brizola assumiu foi o momento em que tivemos o primeiro comandante negro,que polícia militar teve foi no governo Brizola, Carlos Magno Nazaré Cerqueira. 

Então, a polícia sempre foi uma instituição com uma grande quantidade de negros, majoritariamente uma instituição negra, o que não significa dizer que ela na sua prática não seja racista, muitas vezes, porque entre você ter negros e ter uma prática racista tem uma questão aí de consciência”.

Consciência Social na Polícia?

“E eu acho que esse é um problema, um problema maior na minha percepção, do que essa discussão se os policiais pertencem ou não à classe trabalhadora. Eu entendo esse debate mas acho que o problema é maior, e em certo sentido é anterior a esse, porque a gente precisa discutir a consciência.

Se os policiais no Brasil tem consciência do que é ser policial em um estado democrático de direitos, e aí lá na frente, a gente pode discutir um pouco mais sobre isso, porque se você já não tem essa consciência, ou se a tua compreensão de polícia vai contra os próprios princípios e valores de um estado democrático de direitos, a gente não vai fazer abolição nunca na Segurança Pública.

Uma consciência da sua própria atividade que os policiais as vezes não têm, pra gente fazer isso a gente precisa discutir política e estrutura nacional de segurança e modelo de polícia. Precisa fazer uma reforma nisso tudo para que a partir daí as pessoas ganhem consciência, se você não muda o modo como o policial reproduz o seu trabalho, você não vai mudar a consciência dele. 

“Eu vivo repetindo que os policiais são garantidores e promotores dos direitos humanos, porque se não for assim, eles são uma ameaça, era o Cerqueira que falava, Carlos Magno Nazaré Cerqueira”.

(Ibis Pereira)

Eu vivo repetindo que os policiais são garantidores e promotores dos direitos humanos, porque se não for assim, eles são uma ameaça, era o Cerqueira que falava, Carlos Magno Nazaré Cerqueira.

Essa centralidade da questão das relações dos direitos humanos para a atividade policial vem da Revolução Francesa, essa relação entre uma carta de direitos e uma polícia ou uma força pública que possa garantir isso nas ruas, que é o Estado fardado e por isso toda essa dificuldade em discutir uma atuação de um policial. Que é na prática o Estado presente nas ruas, porque discutir isso é discutir se nós estamos verdadeiramente em um Estado democrático de direitos, e acho que essa é uma discussão interessante da gente fazer. 

Tem uma coisa discursiva aí que a gente precisa pensar, o policial como classe trabalhadora, policial é o Estado. Esse discurso soa para ele como aramaico antigo, ele se vê como um aparelho do Estado, e a gente precisa falar de consciência, do papel da polícia.

Falta pensar o que é trabalho hoje, precisa pensar o trabalho na sua dimensão existencial, quando o trabalho não tem valor é escravidão, pra você chamar de trabalho tem que ter haver com alguma coisa que dialogue com a dignidade do homem”.


Agradecemos a disponibilidade e a gentileza do Ibis Pereira em ser entrevistado pela Equipe da IDMJR e tratar de um tema tão latente para os debates de Segurança Pública. Ao longo de todo o mês de maio a IDMJR publicará textos e entrevistas sobre o debate de violência do estado e classe trabalhadora.

Acesse aqui o texto produzido pelos coordenadores da IDMJR também refletindo sobre esse debate.

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