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por IDMJRacial

A abolição é algo muito prático. A Abolição não é um mapa ou script. Algo que cada um de nós aqui faz todos os dias. Abolição é emancipação em ensaio” 

Ruth Gilmore – Marxista Abolicionista 

No dia de hoje 13 de maio no de 1888 se formalizou a partir de uma peça jurídica o que vemos nos livros de história da Abolição da Escravatura, mas sabemos desde essa data que essa abolição nunca aconteceu , por isso por toda nossa história, diariamente do campo a cidade, das favelas aos terreiros, produzimos abolição por emancipação e liberdade.

Nós da IDMJRacial nos colocamos e atuamos como uma organização abolicionista policial e prisional1, e na conjuntura atual construímos um projeto político de pensar e agir cotidianamente para o desinvestimento das polícias e prisões como esse ensaio.

Nos últimos 10 anos a discussão sobre a abolição policial e prisional vem  ganhando força em meio aos debates sobre segurança pública, racismo estrutural e violência de Estado. Mais do que uma simples reforma nas instituições policiais, a abolição propõe um questionamento radical: é possível imaginar uma sociedade sem polícia e prisões?

Para nós a Abolição Policial não significa, de uma hora para outra, sua extinção imediata, mas um processo de desmantelamento estrutural do sistema policial como o conhecemos hoje, substituindo-o por modelos baseados em outras sociabilidades que podem perpassar por processos de fortalecimento comunitário, justiça restaurativa racializada e prevenção comunitária, e remanejamento de orçamentos públicos de produção de morte das polícias para áreas de educação, saúde, cultura , entre outras; ou seja, isso é o que chamamos de desinvestimento das polícias.  

Inspirados nos movimentos abolicionistas que lutaram pelo fim da escravidão, essa perspectiva entende que a polícia, em sua forma não pode ser reformada, pois foi criada para manter a ordem racial e social desigual. Nos EUA, por exemplo, as primeiras forças policiais surgiram a partir de patrulhas que capturavam pessoas escravizadas fugitivas. No Brasil, a polícia sempre atuou de forma seletiva, criminalizando a pobreza e a população negra.  

Nesta sociedade capitalista racial, em várias partes do mundo já experimentamos muitas propostas de “reforma policial” que surgem após casos de violência extrema causado pelo Estado – com uma estética muitas vezes travestida como algo que respeita os direitos humanos, mas que vem com mais violência baseado em uma política de evidências que geram o aumento do treinamento, o uso de câmeras corporais ou a criação de ouvidorias. No entanto, décadas de tentativas mostram que essas medidas não impedem a violência policial, porque o problema não está em alguns policiais , mas na própria natureza da instituição.

A polícia existe para reprimir, controlar e punir, nunca foi e nunca será para proteger. 

A cada ano que passa no mundo o militarismo alavanca uma das formas mais exitosas de acumulação do capital, produzindo inimigos e guerras e com isso a cada ano os orçamentos públicos2, consomem cada vez mais recursos que poderiam ser investidos em saúde, educação, moradia e emprego – políticas que, de fato, reduzem a violência. Enquanto isso, comunidades pobres, negras e periféricas continuam sendo alvo de abordagens violentas e do processo de genocídio.  

Por isto acreditamos que podemos e devemos construir alternativas à Polícia e as Prisões,construindo outras formas de termos nossas favelas e sociedade mais seguras.  A abolição policial e prisional não significa deixar as comunidades sem proteção, mas sim criar dispositivos que resolvam conflitos sem violência. Algumas propostas já vem sendo experimentadas e vividas e incluem desde:  

1. A Justiça Restaurativa Racializada – Resolução de conflitos por meio de diálogo e reparação, em vez de prisão e punição.  

2. Desinvestimento das Polícias– Remanejar verbas da polícia para educação, saúde mental e programas de geração de emprego.  

3. Redes Comunitárias de Proteção – Grupos locais que atuam na mediação de conflitos e no apoio mútuo, sem uso de força.  

Muitas dessas inspirações são fruto do legado do projeto político dos Panteras Negras que entendiam que comunidades negras fortes passavam por ações comunitárias diversas e redes de proteção.

Nós da IDMJRacial temos produzido a política do desinvestimento das polícias3 como o caminhar fazendo para o fim das polícias e prisões para enfrentar uma ideologia que nos diz a toda hora que uma sociedade sem polícia é impossível, mas nós, mesmo por vezes achando que isto pode parecer distante, temos a certeza que a abolição já está em curso e com experiências que mostram sua viabilidade. Comunidades indígenas e quilombolas, por exemplo, historicamente resolvem conflitos sem depender de forças repressivas. O movimento abolicionista propõe que, em vez de reformar um sistema que nos genocida diariamente, devemos construir novas formas de convivência e de sociabilidade.  

A abolição policial não é apenas sobre acabar com a polícia, mas sobretudo de criação de um mundo onde a segurança não dependa da opressão de uma raça e uma cor em detrimento de outra. Enquanto o Estado continuar investindo em mais armas e menos direitos sociais, a violência persistirá. A verdadeira segurança vem da justiça racial, não da repressão e do punitivismo.  

A 137 anos atrás sonhar com o fim da política de escravagismo era dito como impossível, mas ousamos lutar e derrubamos isso.

Abolir a polícia é abrir espaço para um futuro onde a vida valha mais que a propriedade, onde a dignidade não seja negociável, e onde a liberdade não tenha grades.  Se queremos o fim para a violência, precisamos ousar imaginar – e lutar por – um mundo sem polícia e prisões. Aqui deixamos o convite para todos e todas que lerem esse texto a se engajar na política de desinvestimento das polícias que a IDMJRacial vem construindo aqui e pelo Brasil4.


  1. https://dmjracial.com/2021/04/04/abolicao-das-policias-uma-pesquisa-de-opiniao-sobre-seguranca-publica/ ↩︎
  2. https://dmjracial.com/2025/04/01/lancamento-do-dossie-orcamentario-a-seguranca-publica-no-rio-de-janeiro-sao-paulo-e-espirito-santo/ ↩︎
  3. https://dmjracial.com/2024/05/30/i-seminario-internacional-desinvestimento-e-controle-das-policias/ ↩︎
  4. https://dmjracial.com/2025/03/24/rede-abolicionista-lanca-campanha-pelo-desinvestimento-das-policias-em-04-estados-do-brasil/ ↩︎

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