por IDMJRacial
Nosso interesse é refletir como o carnaval popular enquanto prática cultural e política é uma das estratégias de atuação abolicionista e dispositivo de denúncias para a população negra que foi historicamente marginalizada. Nesse caso, vamos tratar sobre como os sambas enredos são instrumentos da produção de memória social e garantem o lugar de protagonismo das lutas sociais para o povo negro, desde o período da ditadura empresarial-militar até os tempos atuais de ofensiva conservadora fascista.
Parte-se da compreensão de que a abolição formal da escravidão não rompeu as estruturas de dominação racial, sendo sucedida por novas formas de controle, como o encarceramento em massa, a violência policial e a marginalização socioeconômica da população negra. A partir da análise de sambas-enredo que tematizam a escravidão, a falsa abolição, a resistência negra e a crítica ao Estado punitivo, argumenta-se que o samba-enredo opera como uma pedagogia abolicionista popular, traduzindo criticamente debates teóricos produzidos por intelectuais e movimentos negros no Brasil e nos Estados Unidos. Conclui-se que o carnaval com os sambas enredos constitui um espaço de disputa de memória, imaginação política e produção de saberes contra-hegemônicos.
A abolição da escravidão no Brasil, formalizada em 1888, ocorreu sem a implementação de políticas estruturais de inclusão da população negra, como acesso à terra, à educação e ao trabalho digno. Mesmo acontecida a partir de um processo diferente gerado pela guerra civil entre norte e sul, a abolição da escravatura nos Estados Unidos após 1865 também foi sucedida por mecanismos de controle racial, como as leis de segregação, a violência policial e a expansão do sistema prisional.
Diante desse cenário, o abolicionismo contemporâneo emerge como crítica à permanência das estruturas escravocratas sob novas formas institucionais. Este artigo propõe compreender o samba-enredo como expressão cultural que dialoga com esse pensamento, funcionando como uma pedagogia política popular capaz de articular memória, denúncia e resistência.
Du Bois (1935) argumenta que a abolição da escravidão nos Estados Unidos não foi acompanhada por uma democracia substantiva, cunhando o conceito de abolition democracy. Segundo o autor, sem a transformação das estruturas econômicas e políticas, a liberdade formal torna-se insuficiente.
Angela Davis (2003) aprofunda essa análise ao demonstrar que o sistema prisional contemporâneo atua como continuidade da escravidão, especialmente no que se refere à população negra. No Brasil, autores como Nascimento (2016) e Gonzalez (2020) denunciam que o racismo estrutural se manifesta por meio da criminalização da pobreza, da violência policial e do encarceramento em massa.
Assim, o abolicionismo deve ser compreendido como um processo histórico contínuo, que ultrapassa o fim legal da escravidão e enfrenta as instituições que reproduzem a lógica racial de punição e exclusão.
O questionamento da abolição como marco de liberdade plena é recorrente no samba-enredo. Em “100 Anos de Liberdade, Realidade ou Ilusão?” (Mangueira, 1988), evidencia-se a contradição entre a celebração oficial do 13 de Maio e a permanência das desigualdades raciais no país. Três décadas depois, o Paraíso do Tuiuti (2018), com “Meu Deus, Meu Deus, Está Extinta a Escravidão?”, retoma essa crítica ao associar a escravidão contemporânea ao trabalho precarizado e às relações de exploração no capitalismo neoliberal.

Esses sambas dialogam com o pensamento abolicionista ao demonstrar que a opressão racial se reorganiza historicamente, reforçando a ideia de que a abolição formal não significou a superação do sistema escravocrata.
Outro eixo fundamental dos sambas-enredo abolicionistas é a valorização dos quilombos como experiências de resistência coletiva. Enredos como “Quilombo dos Palmares” (Salgueiro, 1960) e “Valeu Zumbi” (Unidos da Tijuca, 1988) apresentam Palmares como projeto político de autonomia, e não apenas como episódio histórico.
Essa abordagem aproxima-se das experiências contemporâneas de comunidades quilombolas e de terreiros no Brasil e de organizações negras nos Estados Unidos, como os Panteras Negras, que articulava autodefesa, educação e serviços comunitários. O quilombo e os terreiros, nesse sentido, simbolizam alternativas ao Estado punitivo e às formas hegemônicas de poder.
Sambas-enredo recentes aprofundam a denúncia da violência policial e do encarceramento em massa. Em “Mocangueiro da Cara Preta” (Paraíso do Tuiuti, 2023), explicita-se a criminalização da juventude negra e a seletividade do sistema penal. Já “História para Ninar Gente Grande” (Mangueira, 2019) reposiciona a população negra como sujeito central da história nacional, denunciando o apagamento e a repressão.
Essas narrativas dialogam com movimentos e organizações como a própria Iniciativa Direito à Memória e Justiça Racial, a Agenda Nacional pelo Desencarceramento e Critical Resistance/EUA, que denunciam a polícia e o sistema prisional como instituições racializadas. O samba-enredo, portanto, atua como linguagem acessível que traduz debates do abolicionismo penal para o espaço público.
Ao recontar a história do Brasil a partir da perspectiva negra, o samba-enredo confronta narrativas oficiais centradas nas elites brancas. Dessa forma, o samba-enredo pode ser compreendido como uma pedagogia abolicionista , que educa, mobiliza afetos e produz consciência crítica por meio da cultura popular, o samba enredo produz uma teoria crítica que alcança e constrói escala com o povo negro muito mais que diversas produções acadêmicas.
Haroldo Costa ator, diretor, dramaturgo e pesquisador do samba lembra que o Carnaval nunca foi apenas festa. Ele defendia o samba — especialmente o samba-enredo — como: instrumento de educação popular; forma de contar a história do Brasil a partir do povo negro e o meio de questionar o racismo, a escravidão e as desigualdades sociais. Essa visão contribuiu para a consolidação dos sambas críticos, que rompem com temas folclóricos vazios e abordam questões estruturais da sociedade brasileira.
O samba-enredo constitui uma forma legítima de produção de conhecimento e crítica social. Ao articular memória, denúncia e imaginação política, ele dialoga diretamente com os fundamentos do abolicionismo contemporâneo, denunciando a permanência do racismo estrutural e propondo outras formas de organização social.
Reconhecer o samba-enredo como pedagogia abolicionista implica ampliar os horizontes dos estudos acadêmicos sobre cultura, política e resistência negra, afirmando a centralidade da cultura popular nos processos de transformação social e resistência popular.
Referências
DAVIS, Angela. Are prisons obsolete? New York: Seven Stories Press, 2003.
DU BOIS, W. E. B. Black reconstruction in America. New York: Free Press, 1935.
GONZALEZ, Lélia. Por um feminismo afro-latino-americano. Rio de Janeiro: Zahar, 2020.
NASCIMENTO, Abdias. O genocídio do negro brasileiro. 2. ed. São Paulo: Perspectiva, 2016.

Excelente reflexão sobre o papel do samba-enredo como ferramenta de resistência e pedagogia abolicionista! A análise histórica e cultural é fundamental para entender as lutas atuais da população negra.