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por IDMJRACIAL

Em uma despretensiosa e rápida pesquisa na internet é possível ordenar quais as indústrias mais poluentes do mundo. Energia (petróleo, carvão, gás), moda, química, têxtil, alimentícia e mineração estão no topo do ranking de indústrias mais prejudiciais ao meio ambiente.

Para além desses cálculos, pode-se levar em consideração nesse pódio que as indústrias que mais prejudicam o meio ambiente são as que mais expropriam matérias-primas, exploram mão de obra produtiva, dominam o mercado de forma abrangente e investem no uso de tecnologias inovadoras e a publicidade. 

Não seria uma mera coincidência que a energia renovável seja o novo grande projeto de redução de danos das grandes fundações filantrópicas mundiais. Que a moda sustentável tenha se tornado o carro chefe de grandes grifes e também a hype de digital influencers. Os alimentos orgânicos até se tornaram a nova margarina da família tradicional! Os veículos elétricos atrelados a grandes campanhas de criação de campos de energia renovável, e os grandes avanços tecnológicos que transformam o massacre causado pelo extrativismo e exploração das grandes mineradoras em sustentabilidade.

Esse parece o retrato de um mundo ideal, que funciona perfeitamente para as grandes e potentes nações imperialistas da atualidade – bem como para a manutenção e acirramento das desigualdades existentes nelas. Mas o negativo dessa fotografia esconde tensões, massacres, genocídios, extinção de povos, culturas e nações, à base de conflitos político econômicos espalhados pelo mundo, da produção e expansão de tecnologias de guerra, de controle e monitoramento de populações,  encarceramento em massa, aniquilação de biomas inteiros, mais do que nunca a militarização e o uso do poder de fogo como estratégia de sobrevivência do capital. 

Ellie Shackleton escreveu um artigo para o portal Context em 2024, a especialista que já escreveu sobre emissões militares e sobre a militarização da natureza afirma que as fábricas de armas “não são legalmente obrigados a divulgar suas emissões de GEE ( Gases de Efeito Estufa), e há uma grande disparidade na forma como elas são relatadas”. Segundo relatório da IBIS World, a Indústria Armamentista está no ranking das 12 indústrias que mais lucram no mundo. E isso quer dizer que, apesar do mercado de armas não estar descrito no ranking das indústrias mais poluentes do mundo, ele está intimamente ligado às crises ambientais justamente pela sua cadeia produtiva. Para uma indústria de armas de fogo funcionar ela precisa de insumos de metais, produtos químicos, madeiras, fibras, cerâmicas, borrachas; em seus processos e serviços há o envolvimento de engenheiros, designers, testes de qualidade, logística de distribuição e pesquisas de desenvolvimento. Logo, envolvemos indústrias de energia, química, de mineração e tecnologia.

Por último, mas não menos importante, ainda não falamos sobre quem compra as armas, afinal de contas, uma indústria que lucra durante a pandemia pela COVID19 cerca de 564 Milhões de Euros, não faz parte de um mercado vazio. As armas são produtos com uma finalidade: matar. São amplamente utilizados e incentivados a serem consumidos, gerando impactos sociais e ambientais.

Em relatório publicado pela Small Arms Survey, em 2018 mais de 1 bilhão de armas de fogo circulavam no mundo. 857 milhões nas mãos de civis, 133 milhões em arsenais militares e 23 milhões em agências de aplicação da lei. O Brasil ocupava o 6º lugar, com o registro de mais de 17 milhões de armas de fogo no país – sem constar as armas sem registro, que não são possíveis de se rastrear.

Mas bem, este não é um texto descritivo sobre indústrias de armas, a questão é: quem ganha e quem perde com a indústria de armas? Quais os impactos dela ao meio ambiente e no final, quem sai vivo?

Rosa Luxemburgo analisa como o militarismo se insere no processo de acumulação de capital, destacando sua importância para sua expansão e subsistência. Rosa compreendia que as grandes nações imperialistas necessitavam de nações subordinadas para que o ecossistema do capital mundial permanecesse intacto – basicamente permitir a manutenção na correlação de forças entre um pequeno grupo de países dominantes, as grandes potências mundiais, e muitas nações  – também podendo ser chamadas de Periferias Globais.

Neste caminho, é necessário que algumas estratégias sejam aplicadas, e é nesse momento em que o chamado complexo industrial militar toma sua importância, quando o militarismo é de fato utilizado enquanto um instrumento econômico. Existem algumas marcações importantes sobre isso, mas as que mais interessam aqui são a criação de demanda, a garantia de acesso a mercados e recursos, e a destruição e reconstrução que o militarismo enquanto instrumento econômico possibilita, o que relaciona diretamente a luta contra o militarismo também como uma luta por Justiça Ambiental.

A história do mundo sob a égide capitalista já descreve bem como o militarismo funcionou para os processos coloniais e imperialistas, sempre com o uso da violência, a exploração de mão de obra, extração de recursos e concentração de riqueza.

Uma guerra depende necessariamente de dois lados. Os católicos e pagãos, Espanhóis e Portugueses, Haiti e França, Israel e Palestina, a Guerra do Vietnã, Rússia e Ucrânia,  não necessariamente em ordem cronológica, todas elas selecionaram um inimigo político, mobilizaram mercados de armas, destruíram e reconstruíram territórios, abriram caminhos para mercados de exploração econômica, criação de rotas comerciais e/ou apenas fortalecimento de grandes nações imperialistas diante do cenário econômico mundial.

Mas isso não se dá apenas em níveis de conflitos internacionais. E se colocarmos nossa lupa sobre o Rio de Janeiro hoje? Podemos voltar à lista da IBIS World, onde existe uma estimativa de que entre os mercados “ilícitos” – que na IDMJRacial preferimos chamar de mercados informais – o que mais lucra é o tráfico de drogas, seguido pelo tráfico de pessoas e o mercado de falsificações. A questão é que essa droga é distribuída em territórios para que sejam vendidas e obviamente o varejo de drogas passa a ser combatido pelas Polícias. Assim, o mercado informal que mais lucra no mundo se torna o que alavanca a indústria de armas.

Ao permitir que as drogas cheguem em favelas e periferias, um inimigo público é criado, ou melhor, atualizado. Os territórios negros e não brancos no Brasil historicamente são os mais violados pelo militarismo, sendo escravizado, dizimado, criminalizado, explorado em postos de trabalho precarizados e perdendo suas terras para grandes indústrias. Tudo isso debaixo dos três pilares da guerra: de seleção de um inimigo, da morte do inimigo para acesso e controle do território e da expansão de mercados, explorando o inimigo como mão de obra barata. A combinação perfeita para que todos saiam lucrando às custas do povo negro, favelado e e de povos originários. Em exemplo, para 2025, do orçamento de R$12,7 bilhões que o Rio de Janeiro investiu nas Polícias Civil e Militar, 61% foi para recursos de policiamento, que envolve aquisição de material bélico. O mesmo Estado que colabora e se beneficia do mercado de drogas, é o que colabora e se beneficiar da indústria de armas, às custas do povo negro, periférico e de povos tradicionais.

Inclusive: seriam de fato o genocídio dos povos negros e não brancos descartáveis ou altamente lucrativos para o capital?  de povos tradicionais?

Os impactos ambientais do militarismo e da indústria de armas.

As armas são produtos de uma indústria altamente lucrativa. Logo, ela faz parte de uma cadeia produtiva com alta demanda, produção e utilização. Elas seriam obsoletas se não cumprissem o seu devido papel: matar.

Mas a questão é que precisamos ampliar os horizontes de análise e compreender todas as formas de dano que o uso de armas pode causar, e no que diz sobre os reflexos que isso traz em específico ao meio ambiente, é importante ressaltar não apenas seu processo de fabricação onerosa, mas também os impactos do uso das armas.

O militarismo tem um impacto negativo em toda a biodiversidade – para além das mortes de pessoas-, destruindo habitats e afetando espécies nativas, poluindo além de ao descartarmos equipamentos obsoletos de guerra geramos resíduos que precisam ser tratados de forma segura e ambientalmente responsável, o que não acontece.

Segundo artigo de Bryan C. Williamson para o portal The Regulatory Review, as munições contidas em armar de campos de tiro na Flórida são altamente prejudiciais a todo o ecossistema, “contaminantes incluem chumbo, cobre, zinco, antimônio e até mercúrio, todos os quais podem afundar no solo e às vezes lixivar para as águas subterrâneas e superficiais. A exposição a esses contaminantes através do solo ou da água pode levar a doenças e possivelmente à morte para aqueles que passam quantidades significativas de tempo em áreas contaminadas, como trabalhadores e visitantes”.

Ainda em cenários de guerra, com armamentos específicos para alta destruição e por vezes armas químicas, os problemas não são diferentes, e podem se desdobrar em cenários ainda mais devastadores. O CICV – Comitê Internacional da Cruz Vermelha – cuja missão é exclusiva para proteger a vida e a dignidade de vítimas dos conflitos armados e outras situações de violência – afirma que para além dos impactos na vida das pessoas que vivem em territórios em guerra ou pós guerra, que acabam morrendo ou sendo mutiladas a partir da contaminação por armas, também encontram dificuldades na reconstrução pós conflitos com falta de acesso a recurso básicos como água, comida, acesso a escolas e unidades de saúde. Entre as consequências ao meio ambiente, estão a degradação do solo, poluição das águas, destruição das espécies, diminuição da biodiversidade, e desequilíbrio na cadeia alimentar. Além disso, há casos onde desastres naturais, como furacões, terremotos e inundações espalham restos explosivos e minas de guerra nos territórios, alastrando os impactos negativos do militarismo e das armas para o meio ambiente.

Desinvestir nas forças de segurança no Brasil e no Mundo é fortalecer o meio ambiente

A luta contra a militarização não é algo novo ou inédito no mundo, o grande problema é que os caminhos clássicos para desmilitarizar, de algum mudo, estão sempre apontados para o senso moral dos produtores da vida militarizada.

A IDMJRacial, a partir do desafio de cometer novos erros na luta contra o genocídio do povo negro tem se debruçado e articulado no Brasil e no mundo a campanha Pelo Desinvestimento e controle das Polícias. O movimento que já está presente em pelo menos 4 estados e no Distrito Federal do Brasil (Brasília, Espírito Santo, Rio de Janeiro, São Paulo e Paraná) consiste em práticas de incidência política popular para retirar o dinheiro que seria investido nas forças policiais e reinvestir em políticas sociais.

Para além do controle popular das polícias a partir do desinvestimento financeiro que o Estado colocaria em armas e policiamento, desinvestir das polícias é um caminho para boicotar a indústria de armas e a militarização no mundo; sancionando compras e vendas de equipamentos bélicos, barrando a construção de indústrias de armas e construindo barreiras para que a sociedade não invista na prática de combate a inimigo sociais criados pelo Estado como caminho para a resolução de problemas fundantes e estruturais da sociedade.

Ao diminuirmos a produção de guerra e do militarismo, estaríamos produzindo também a reparação ambiental, pois os recursos poderiam ir para fundos para combater as mudanças climáticas, desmatamentos, fortalecimento de comunidades tradicionais e demarcação de terras. Lutar contra o militarismo é lutar por Justiça Ambiental.

Em nosso horizonte político, o objetivo final a médio e a longo prazo é construir o fim do capitalismo. De nada adiantará as lutas ambientais que não atingem diretamente os modos de produção de vida capitalistas, pois nesse sistema, o militarismo e o meio ambiente são alavancas de para a exploração, expropriação e acumulação de capital.

Por isso convocamos todos os movimentos e organizações ambientais a se engajar na luta contra o militarismo a partir do DESINVESTIMENTO DAS FORÇAS DE SEGURANÇA NO BRASIL E NO MUNDO. Ao remanejar orçamentos públicos de políticas de produção de guerra para as políticas sociais, estaremos enfraquecendo a produção da indústria armamentista e por consequência diminuindo os impactos ambientais. Acreditar que a COP30 no Brasil irá frear a sanha de acumulação do capitalismo não seria muita inocência? De que servem esses mega eventos sobre o clima no mundo? Quais impactos temos para os territórios negros de favelas?


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