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Por Caio Reis, Assessor de Mobilização da IDMJRacial

A Baixada Fluminense, berço de resistência, é marcada por uma história de luta e superação. Durante séculos, os territórios periféricos do Rio de Janeiro foram palco de resistência de povos negros e indígenas que, apesar da violência e da repressão, mantiveram sua identidade e cultura vivas. O que deveria ser um território de liberdade e afirmação se tornou, ao longo do tempo por atuação truculenta do Estado tornou-se um campo de batalha, onde a juventude negra é constantemente alvo da violência institucional. O investimento do Estado em segurança pública, com sua lógica de repressão e controle, perpetua um ciclo de genocídio e exclusão.

Neste contexto, a educação se torna um espaço de resistência e transformação. Quando o Estado decide investir mais em armamentos do que em escolas, ele escolhe manter o status quo da violência, em vez de oferecer aos jovens periféricos a oportunidade de escrever uma nova história. O que está em jogo não são apenas números e orçamentos, mas vidas que podem ser moldadas pelo conhecimento, pela memória e pela cultura.

Foi com esse espírito de resistência e conscientização que a IDMJR junto com à comunidade escolar elaboramos uma reflexão e ao protagonismo. Em uma manhã e tarde intensas, nos deparamos com jovens negros que, ao tomarem contato com sua história e sua identidade, puderam perceber como o desinvestimento em educação está diretamente relacionado à perpetuação da violência policial e à marginalização de seus territórios. Em um gesto simbólico, lançamos um memorial na escola manutenção do legado e história da Hidra do Iguassú, uma verdadeira expressão da resistência negra, cujos ecos reverberam até os dias de hoje na luta contra o genocídio da juventude negra.

Durante a atividade, apresentamos o Plano Orçamentário do Rio de Janeiro (PLOA) para 2025. Os números falam por si, 19 bilhões de reais estão destinados à segurança pública, a maior parcela do orçamento é direcionado para uma política de produção de morte. Esse desequilíbrio brutal revela uma política que prioriza a repressão em vez do fortalecimento de políticas sociais que promovam a emancipação e formação e do futuro dos jovens.

Ao expor esses números, nossos alunos puderam perceber como o Estado aloca seus recursos para militarizar e controlar, enquanto negligencia o potencial transformador da educação. Quando o Estado escolhe investir mais em armamentos e operações policiais do que na educação, ele está claramente valorizando o controle e a repressão, em vez de promover a formação, a igualdade e a emancipação da juventude negra.


A Realidade da Violência Policial para os Jovens Negros

Durante as conversas, os estudantes dividiram suas próprias experiências com operações e abordagens policiais, evidenciando o peso da violência nos territórios periféricos. Para muitos, o medo e a sensação de opressão são parte do cotidiano. As histórias eram impactantes, mas infelizmente comuns: abordagens truculentas, restrições de circulação e operações com armamento pesado em áreas habitadas principalmente por pessoas negras. Em vários momentos, o testemunho de um jovem se conectava ao de outro, e juntos, pintaram um retrato real da presença do Estado em suas vidas — um Estado armado e distante, que não se faz presente através de escolas, mas de viaturas e fuzis.

Essas conversas trouxeram à tona o sofrimento gerado por políticas que desumanizam os jovens, criminalizando-os antes mesmo de oferecer a eles oportunidades dignas. A juventude negra vive a tensão entre sobreviver e resistir em um sistema que, para muitos, parece operar ativamente em sua destruição.

“Os nossos governantes investem mais em caveirões blindados e armamentos do que na nossa educação,” disse uma estudante durante as rodas de conversa promovida pela IDMJR


Memorial da Hidra do Iguassú: Resgatando Nossa História de Resistência

No turno da tarde, marcamos um momento especial: o lançamento de um memorial produzido pela IDMJRacial que passará a integrar o circuito museológico da escola. Em uma arte grafite, representamos a Hidra do Iguassú, uma poderosa referência histórica e simbólica à resistência negra de mulheres negras na Baixada Fluminense. Esse complexo de quilombos, também conhecido como Hidra de Iguassú, foi liderado por mulheres negras que desafiaram a coroa brasileira, mantendo um território livre e autônomo durante quase um século. À época, esse território era visto como uma ameaça pública, um símbolo de insubmissão e força que resistiu aos ataques do Estado e que, hoje, inspira a luta por direitos e igualdade.

A escolha da escola para abrigar esse memorial, que também exibe outras obras ligadas ao legado do povo negro e indígena, não foi casual. Este espaço de conhecimento agora passa a contar com uma obra que ressalta a resiliência da juventude negra. A Hidra do Iguassú é um lembrete de que, apesar dos esforços para silenciar e oprimir, a resistência sobrevive e se reconfigura. Nossa arte reconta essa história para que o aprendizado sobre a luta e a força do nosso povo não se perca, mas seja fortalecido, inspirando as novas gerações.


Educação como Ferramenta de Transformação: Nossa Luta Continua

Ao promover atividades como esta, reiteramos nosso compromisso com a juventude, oferecendo um espaço para que possam se ver e serem ouvidos. Nossas rodas de conversa vão além da denúncia — são espaços de reconstrução e revalorização de nossa identidade coletiva. A luta contra o genocídio da juventude negra não é apenas uma demanda social; é um grito de resistência de um povo que, como a Hidra do Iguassú, não sucumbiu e segue desafiando as estruturas que tentam reduzi-lo.

Continuaremos exigindo: menos armas, mais escolas. Enquanto o Estado priorizar o investimento em segurança repressiva e negligenciar a educação, seguiremos combatendo essa política com informação, memória e união. Sabemos que uma juventude informada é uma juventude que resiste, e nossa missão é garantir que essas histórias de luta continuem sendo contadas, vividas e ampliadas.


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