por IDMJRacial
O debate sobre o desinvestimento das polícias, que se intensificou internacionalmente após a morte de George Floyd com a mobilização dos movimentos por justiça racial nos Estados Unidos, ganhou contornos específicos no Brasil devido à centralidade histórica do racismo e do patriarcado na constituição do Estado e de suas instituições de controle.
Entre os atores que reivindicam o remanejamento do orçamento público da política de produção de morte das polícias para as políticas sociais se destacam no Brasil o protagonismo de nossa organização IDMJRacial1, liderada por mulheres negras, a Rede Abolicionista por uma Incidência Política Popular2 e os Movimentos de Mães e Familiares Vítimas da Violência Policial.
No recente curso de formação promovido pela IDMJRacial e o Centro de Tradições Ilê Asé Egi Omim Mulheres Negras no Orçamento3, e nos debates públicos ocorridos nos territórios negros de favelas e periferias temos a destacar, que são as mulheres negras, que articulam uma crítica profunda ao modelo de policiamento militarizado e às formas como o Estado exerce violência e vigilância sobre os corpos e territórios racializados. Logo, a defesa do desinvestimento policial não se resume a uma proposta de diminuição de recursos, mas a uma reelaboração do paradigma de segurança, pautada na promoção de direitos, no combate ao racismo e patriarcado estrutural e na proteção da vida negra.
Entre 2010 e 2023: os orçamentos policiais cresceram4, as operações policiais se ampliaram, o encarceramento da população negra se ampliou e a letalidade policial e as violações de direitos humanos não diminuíram.
Neste cenário são elas as mulheres negras que emergem como protagonistas desse debate porque ocupam, historicamente, posições sociais que as tornam simultaneamente alvo, testemunhas e sobreviventes da violência de Estado. Assim, a defesa do desinvestimento policial é compreendida como uma estratégia política de enfrentamento ao racismo institucional e de reivindicação de políticas públicas que priorizem a proteção da vida e o fortalecimento comunitário.
A centralidade das mulheres negras nessa defesa decorre do fato de que elas são desproporcionalmente afetadas pela letalidade e pela violência policial, ainda que não estejam majoritariamente entre os mortos. No Brasil, os principais atingidos pela ação policial são homens jovens e negros; porém, são as mulheres negras — mães, avós, irmãs, companheiras e cuidadoras — que lidam com as consequências psíquicas, materiais e sociais do genocídio produzido pelas polícias. A perda de um filho ou familiar impacta profundamente a dinâmica familiar, ampliando vulnerabilidades econômicas, emocionais e territoriais. Assim, o desinvestimento nas polícias é defendido como uma forma de mitigar os danos gerados por instituições que historicamente violam direitos de famílias negras e periféricas.
Além disso, as mulheres negras apontam que as polícias são ferramentas de controle social e racial, reproduzindo desigualdades históricas. Estudos e o conhecimento produzido pelos territórios negros demonstram que dispositivos de policiamento no Brasil — desde abordagens ostensivas até tecnologias de vigilância — são direcionados de maneira seletiva aos territórios racializados. Sistemas como o reconhecimento facial, por exemplo, têm taxas de erro significativamente maiores para pessoas negras, ampliando riscos de prisões indevidas e reforçando lógicas discriminatórias. Para essas mulheres, o desinvestimento não é uma negação da necessidade de segurança pública, mas uma crítica a um sistema que produz insegurança.
A defesa do desinvestimento também se relaciona com a compreensão de que o aumento de recursos policiais não reduz a violência. A expansão dos orçamentos de segurança pública nas últimas décadas não se converteu em maior proteção às populações negras. Pelo contrário, resultou na intensificação das operações, no aprofundamento da militarização e no agravamento da letalidade. Dessa forma, mulheres negras argumentam que a solução para a violência urbana não reside em maior armamento ou tecnologia policial, mas na ampliação de políticas estruturantes, como educação, saúde, moradia, assistência social e geração de renda. O redirecionamento de recursos para tais áreas é visto como um caminho mais eficaz para a construção de segurança real.
Outro elemento central para esse debate é a atuação histórica das mulheres negras como lideranças comunitárias. Elas são responsáveis por sustentar redes de cuidado, organizar iniciativas culturais e educativas, apoiar jovens ameaçados pela violência e reivindicar direitos básicos em contextos de abandono estatal. O investimento em políticas sociais, portanto, dialoga diretamente com a experiência concreta dessas mulheres, que testemunham diariamente os limites e danos do modelo repressivo. Nesse sentido, o desinvestimento das polícias é também a defesa de um paradigma de segurança que reconheça saberes comunitários e fortaleça práticas de prevenção.
Em síntese, mulheres negras defendem o desinvestimento das polícias porque compreendem que o atual modelo de segurança pública não garante proteção, mas produz morte, sofrimento e insegurança em seus territórios. O desinvestimento policial, portanto, constitui um dispositivo abolicionista de transformação estrutural, orientada por experiências concretas de resistência e por um projeto de futuro em que a segurança seja construída a partir do fortalecimento comunitário. investir em repressão não gera segurança, mas intensifica conflitos, viola direitos e aprofunda desigualdades raciais. Assim, as mulheres negras defendem o remanejamento de orçamento público para políticas de promoção a vida negra.
Estamos escrevendo esse artigo de opinião em meio a Marcha das Mulheres Negras que irá acontecer , hoje, dia 25 de novembro de 2025 em Brasília, que tem como slogan: por Justiça, Reparação e Bem Viver, mas para nós da IDMJRacial é um escárnio falarmos em Bem Viver quando temos na PLOA – Projeto de Lei Orçamentário Anual – 2026 do governo federal R$0,00(zero reais) previsto para políticas de mulheres negras, enquanto para os ministérios da defesa e o ministério de justiça e segurança pública, o que não falta, são verbas públicas para produção de morte e controle racial. O que temos no orçamento público previstos são projetos estruturantes e universais que mulheres negras são a maioria do público, mas o que falamos e desejamos é que a centralidade das mulheres negras estejam não como algo transversal ,mas no centro do debate do orçamento público.
A defesa do desinvestimento das polícias pelas mulheres negras no Brasil pode gerar a oportunidade para construirmos essa política que ponha as mulheres negras no centro do debate do orçamento público no Brasil, pois nossa análise é estruturada, histórica e empírica sobre a forma como o Estado exerce violência contra populações racializadas. Nossa agenda reivindica uma transformação profunda do modelo vigente, questionando a centralidade do aparato repressivo e afirmando a urgência do investimento em políticas sociais capazes de produzir segurança real.
Mulheres negras ocupam essa posição política porque são elas que enfrentam, de maneira mais intensa, as consequências da atuação violenta das polícias e do abandono estatal. Elas transformam suas experiências em ação coletiva e elaboram alternativas que colocam a vida — e não a repressão — no centro das políticas públicas.
Por um projeto político de desinvestimento das polícias!
- https://dmjracial.com/2024/05/30/i-seminario-internacional-desinvestimento-e-controle-das-policias/ ↩︎
- https://dmjracial.com/2025/03/24/rede-abolicionista-lanca-campanha-pelo-desinvestimento-das-policias-em-04-estados-do-brasil/ ↩︎
- https://dmjracial.com/2025/11/20/20-de-novembro-formacao-politica-sobre-orcamento-publico-para-mulheres-negras/ ↩︎
- https://dmjracial.com/2025/04/01/lancamento-do-dossie-orcamentario-a-seguranca-publica-no-rio-de-janeiro-sao-paulo-e-espirito-santo/ ↩︎
