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por Fransérgio Goulart – Diretor Executivo da IDMJRacial

Os confrontos recentes em Rio das Pedras representam um dos momentos mais significativos da reconfiguração do crime organizado no Rio de Janeiro. Considerado o berço das milícias, o território tornou-se alvo da expansão do Comando Vermelho, evidenciando uma disputa que transcende organizações criminosas, pois o protagonista do que vem acontecendo é o próprio Estado. Milícias e Varejo de drogas existem por causa do Estado, pois fazem parte deste. 

Este artigo sustenta que a  conjuntura e o contexto atual de Rio das Pedras é consequência de um processo histórico em que agentes estatais, políticas de segurança militarizadas, ausência de direitos e especulação imobiliária andam juntos. Assim, o Estado aparece simultaneamente como ausente na garantia de direitos e presente por meio da violência e da seletividade penal.

Inicialmente de forma breve iremos abordar a gênese das milícias.

Rio das Pedras consolidou-se, nas décadas de 1980 e 1990, como uma comunidade onde policiais, bombeiros, agentes penitenciários e outros agentes públicos passaram a exercer controle territorial sob o discurso de proteção contra o tráfico. Com o tempo, esse modelo transformou-se em um sistema de extorsão baseado na cobrança por segurança, transporte alternativo, gás, internet, TV clandestina e mercado imobiliário irregular. Neste processo há uma transformação de grupos de extermínio em organizações econômicas armadas.  

A expansão das milícias não ocorreu apenas pela ausência do Estado. Diversos estudos apontam que sua consolidação esteve ligada à participação direta do Estado a partir de agentes públicos, à baixa responsabilização institucional e à articulação entre violência, política e acumulação do capital. Isso não significa que o Estado seja um ator único ou homogêneo, mas que diferentes instituições e agentes contribuíram, em determinados contextos, para a consolidação dessas estruturas.

Aqui vale destacar que a partir da escolha consciente e de consolidar uma política de segurança pública miliciana, o Estado centrou suas políticas quase exclusivamente na guerra às drogas, favoreceram uma repressão concentrada sobre territórios controlados pelo tráfico, enquanto áreas dominadas por milícias, durante longos períodos, receberam menor pressão estatal, permitindo sua expansão econômica e política.

Já chegando nos últimos anos, vemos o Comando Vermelho iniciar uma estratégia de expansão sobre territórios historicamente controlados por milícias na Zona Oeste. A perda de áreas como Muzema e Gardênia Azul aumentou a importância estratégica de Rio das Pedras, considerada um dos últimos grandes redutos históricos desse modelo de dominação territorial. Em junho de 2026, confrontos intensos interromperam transportes, afetaram escolas e serviços de saúde, demonstrando a gravidade da disputa.  Segundo investigações divulgadas pela imprensa, há indícios de mudanças de alianças entre integrantes de grupos milicianos e o CV, revelando que as fronteiras entre organizações criminosas podem ser mais fluidas do que frequentemente se supõe.  

Nesta conjuntura, os moradores de Rio das Pedras permanecem submetidos a diferentes formas de controle armado. A disputa não representa substituição da violência por segurança, mas uma mudança no grupo que exerce o domínio territorial. Os impactos incluem restrição da circulação, fechamento de escolas, interrupção do transporte público, aumento da letalidade e aprofundamento da insegurança cotidiana.  

Em última instância, Rio das Pedras evidencia que a violência no Rio de Janeiro não pode ser reduzida ao enfrentamento entre facções e milícias, até porque elas fazem parte do Estado. Estão em casas legislativas, no executivo e no judiciário. A Violência é resultado de décadas de desigualdade racial e de políticas de segurança baseadas na militarização. 

A responsabilidade estatal deve ser compreendida em diferentes níveis: pela incapacidade de garantir direitos sociais, pela persistência de políticas que privilegiam respostas bélicas em detrimento da prevenção e, quando comprovado por investigações e decisões judiciais, pela atuação ilícita de agentes públicos que favorecem ou integram estas organizações.

O Estado Capitalista Racial sempre estará a serviço de uma fração de classe da burguesia, logo esses grupos milicianos e do varejo de drogas, junto com as polícias fazem parte da engrenagem para manutenção da hegemonia econômica e política desta fração de classe, ou seja, o Estado é a principal máquina de violar direitos.

Desde sexta feira passada quando pensamos em lançar esse artigo de opinião, a área da cidade denominada recentemente de região sudoeste, em parte desta, nas favelas: Rio das Pedras, Gardênia, Cidade de Deus e Muzema vêm sofrendo a potencialização da militarização, hora com operações policiais, hora com conflitos de milícias e CV, e no pano de fundo a luta por territórios, que nada mais é do que o Estado produzindo especulação imobiliária.

Aqui também chamamos atenção que esta área e outras estão mapeadas para implementação do Plano de Ocupação Militar resultado da decisão da ADPF 635 proferida pelo STF – Supremo Tribunal Federal. Aqui indagamos qual foi o critério de escolha para priorizar as comunidades da região sudoeste da cidade? Para nós, os interesses econômicos construídos para acumulação do capital a partir de 02 elementos: militarização com a produção de guerra e a especulação imobiliária, foram estes os critérios.

Por fim, vale afirmar que com o chegar das próximas eleições, o que vemos são que tanto as candidaturas de direita e as progressista podem divergir de estratégias, mas os projetos para segurança pública se assemelham, legitimando a  política de confrontos, invasão militar territorial e encarceramento em massa.


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