1 12 min 2 anos

por Rudson Amorim – Assessor de Comunicação da IDMJRacial

Na última segunda-feira, dia 07 de outubro de 2024, a Iniciativa Direito à Memória e Justiça Racial e o Centro de Tradições Afro – brasileiras Ylê Asè Egi Omim promoveram, em parceria com alguns coletivos do Rio de Janeiro, um encontro com a ativista Ruth Gilmore. 

Ruth Wilson Gilmore é uma pesquisadora, escritora e ativista norte-americana. Sua principal atuação no campo dos direitos humanos é voltada para a luta abolicionista e antirracista através dea teoria e perspectiva marxista. Ruth também é professora de Geografia no Ambiente na City University of New York e diretora do Center for Place, Culture and Politics. 

Na primeira parte da atividade, foi realizada uma gravação de uma entrevista entre Ruth Gilmore e Yá Wanda de Araújo, mediada por Fransérgio Goulart. Nesta conversa, que estará disponível em breve,  Yá Wanda apresentou uma perspectiva a partir da realidade dos povos de terreiros sobre o enfrentamento ao racismo e intolerância religiosa no Brasil. Neste sentido, Ruth Gilmore acrescentou ao debate sua perspectiva enquanto uma pesquisadora e ativista global no enfrentamento desses temas. Nessa entrevista Ruth afirmou que com todas as críticas que possam ser feitas ao marxismo, essa teoria em sua perspectiva e vivência, sem criticar as outras, alicerça a luta abolicionista.

Logo após essa primeira atividade, a IDMJRacial, Ylê Asè Egi Omim e Ruth Gilmore se reuniram com os coletivos presentes para uma roda de conversa sobre abolicionismos: penal e policial. Estiveram presentes nessa roda de conversa os seguintes coletivos: PET Povos de Terreiro, Cordão do Boitatá, MUDA – Novas Economias, Observatório de Favelas, Roça de Quilombo, Ylê Axé Òbá Labí, Escola Quilombista Dandara dos Palmares, Rede Nacional de Mães e Familiares Vítimas da Violência do Estado, Grupo Tortura Nunca Mais RJ, Agenda Nacional pelo Desencarceramento e Frente Estadual pelo Desencarceramento RJ, Iser, Fórum Popular de Segurança Pública do Estado do RJ, Ocupação Cultural Torojí, A Mareense – Comunicadores Comunitários, Sauti Yetu Language Justice, Mídia 1508, Editora Igrá Kniga, educadoras escolas públicas e ativistas das favelas do Chapadão, Complexo Alemão, Maré e Baixada Fluminense

Em sua fala inicial, Yá Wanda Araújo abriu a roda de conversa apresentando o espaço do Ylê Asé Egi Omim, que é um centro de tradições afro-brasileiras, localizado em Santa Teresa e que promove diversas ações sociais e culturais para os moradores do território. Yá Wanda também fez uma provocação às lideranças ali presentes. Ela relembrou que aquele também era um espaço de formação e produção de conhecimento e solicitou a todos para se sentirem à vontade para contribuírem com seus conhecimentos em espaços tradicionais como aquele, e não só nos espaços de formação acadêmica.

“Se tiver alguém aqui presente que está lá no cimento (universidades) com as suas teses e seus escritos, tragam para essa roda. Porque senão fica tudo lá e a gente não acessa. Então tragam os escritos de vocês para a roda, porque se não a gente só manda pra lá e não volta pra cá! ”  – disse Yá Wanda. 

Logo após, Ruth Gilmore fez uma fala inicial agradecendo a presença dos coletivos presentes. Ela trouxe um panorama geral sobre sua pesquisa relacionada à abolição nos Estados Unidos, publicada através do Livro “Califórnia Gulag: prisões, crise do capitalismo e abolicionismo penal”. Ela também reforçou que a luta abolicionista não é algo novo para o contexto brasileiro, sobretudo a partir da realidade dos coletivos presentes, que promovem lutas abolicionistas e anti racistas nos seus territórios cotidianamente. 

A abolição é algo muito prático. A Abolição não é um mapa ou script. Algo que cada um de nós aqui faz todos os dias. Abolição é emancipação em ensaio”  – relembrou Ruth. 

Ruth também fez duras críticas ao sistema prisional norte-americano, a violência e truculência das forças policiais e abuso de poder por parte do Estado, questões que estão também diretamente relacionadas com o contexto brasileiro e latino-americano de maneira geral. 

“Os chamados partidos progressistas do Estados Unidos, que não são progressistas de forma nenhuma, construíram sua legitimidade construindo prisões, da mesma forma que foi feito aqui no Brasil. O PT construiu sua legitimidade construindo prisões e invadindo favelas. Essas realidades não são apenas coincidência, eles dialogam uns com os outros! Eles são organizados. A gente tem o nosso morro e eles tem o rooftop deles. “ – Ruth Gilmore

Além disso, Ruth elogiou o trabalho relacionado à pesquisa e produção de dados por parte das organizações e coletivos brasileiros. Ela reafirmou a importância de encontros e atividades como essa, que auxiliam na divulgação e circulação de informações e que potencializam as ações nos territórios de atuação dos coletivos. 

“A função da pesquisa é levar informação o mais longe possível. Seja através de um livro ou uma roda de conversa. O que importa é que nossa voz política alcance os lugares que ela precisa alcançar.” 

Após a fala de Ruth, os coletivos presentes colaboraram ao debate contando um pouco de suas experiências de enfrentamento ao racismo e a luta abolicionista nos seus territórios. Alguns trouxeram a perspectiva de enfrentamento a truculência policial nas favelas e periferias do Rio de Janeiro, outros sobre a resistências de espaços de cultura e de formação para o fortalecimento dos territórios. 

Uma das falas mais impactantes foi da ativista Gizele Martins – A Mareense – Comunicadores Comunitários. Ela trouxe a sua experiência representando o Movimento de Favelas do Rio que foi convidado a ir à Palestina para denunciar o 1º ano de genocídio em Gaza. Ela traça um paralelo direto da violência vivida pelo povo palestino a realidade enfrentada pelas favelas no Rio de Janeiro. 

Eu pude ver na Palestina o maior laboratório de uma política da morte do mundo, já que Israel é o principal de armas e tecnologia do mundo.Os caveirões que circulam nas favelas do Rio são caveirões israelenses. As câmeras de vigilância que hoje estão aprisionando nossos jovens no Brasil são câmeras de vigilância que há 15 anos foram experimentadas em Gaza. As torres de controle que existem no Alemão, quando a UPP invade a Favela do Alemão, são torres de controle espelhadas nas torres de controle que existem na Palestina. Os helicópteros que estavam na minha favela, e esse ano nós tivemos 40 operações policiais, esses helicópteros que atiram nos nossos corpos, na nossa favela, no nosso chão… São helicópteros que estão agora assinando mulheres, crianças e jovens em toda faixa de Gaze e em toda Palestina.
[…] “o Governo Brrasileiro é um dos maiores compradores de armas de Israel. As armas que estão matando a juventude negra nas favelas são as armas israelenses experimentadas nos corpos palestinos. Mas não só o Brasil que tá comprando, são inúmeros países que fazem a política do apartheid, do genocidio e da militarização global.” – Gizele Martins

Giselle Florentino da IDMJRacial apresentou a estratégia do debate do orçamento público na pauta da segurança pública e prisional na produção de uma política de retirada de recursos das forças policiais,ou seja, de uma política de desinvestimentos gradual como forma de produção de controle da polícia e por consequência da Letalidade Policial.

Após a fala dos outros coletivos presentes e encerrando as atividades do dia, Ruth agradeceu pelo espaço e acolhimento e se sentiu muito empolgada com o trabalho exercido pelas organizações abolicionistas no Brasil. Ela se sentiu inspirada com a luta organizada por essas lideranças nas favelas e periferias do Rio de Janeiro e reforçou como a luta abolicionista no Brasil é uma referência para todo mundo. 

“Pra toda história, ou movimento ou organização que eu ouvi essa tarde, eu poderia com muita felicidade compartilhar o que outras organizações parecidas com essa estão fazendo em outros lugares do mundo. Isso me faz me sentir tão otimista sobre a possibilidade do abolicionismo internacionalista. 
Em todo lugar que eu vou, as pessoas estão falando de luta, sobre os mesmos tipos de luta e de formas muito práticas, assim como vocês estão fazendo. Seja uma escola que começa numa casa na laje da casa de uma companheira, uma escola de samba ou ocupação de moradias… Elas estão todas relacionadas. E tem tanta energia que as pessoas estão usando hoje no mundo e estão indo na mesma direção abolicionista.” 
– Ruth Gilmore

Em continuidade a celebração dos 5 anos de existência da IDMJRacial e toda sua luta abolicionista, nós estamos premiando desde o final de 2023 lideranças e coletivos através de um troféu que simboliza a luta pela Abolição das Polícias e Prisões realizado por essas organizações. Como a Ruth Gilmore é uma das principais vozes do mundo nesta luta, nós aproveitamos esse encontro para reconhecer seu protagonismo através da entrega dessa premiação.

Além da agenda com o IDMJRacial, Ruth também esteve presente com outros coletivos e instituições no Rio de Janeiro, como na Coletiva Mulheres de Pedra, em Pedra de Guaratiba, onde promoveu uma roda de conversa com as lideranças femininas do território. Também promoveu um encontro na Casa das Pretas e ministrou uma aula aberta para o curso de pós-graduação em Geografia da Universidade Federal Fluminense – UFF através da articulação com o movimento Geógrafos Negros. 

Em sua passagem pelo Brasil, Ruth ainda visitará os estados do Maranhão, São Paulo e Bahia. Assim como no Rio de Janeiro, ela vai participar de uma série de agendas com movimentos sociais abolicionistas prisionais e das polícias.


One thought on “ENCONTRO ABOLICIONISTA COM RUTH GILMORE

Deixe uma resposta