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Por IDMJRacial

Quando penso em memória, reparação e justiça racial, eu penso em ginga e malandragem. Quando uma comunidade de terreiro foi e vai ser chamada de religião, por estratégia? Quando essas comunidades vão se colocar como povo tradicional? Ela também é isso tudo! Nós vivemos em um sistema falido, que não há possibilidade de reforma, não tem salvação. A sociedade precisa ser refundada. Até lá, precisamos de estratégias.”

Fernando Luiz Barbosa

No dia 30 de novembro de 2023 ocorreu no auditório da Ação da Cidadania, o lançamento da 2ª Edição da Revista Ruas e Encruzilhadas da IDMJRACIAL em parceria com Instituto de Religiões – ISER e Instituto Marielle Franco – IMF.

Em sua 1° edição a revista tratou sobre o tema da Abolição das Polícias e Prisões, e neste ano (2023), trouxemos como centralidade o tema da Memória, a Reparação e a Justiça Racial, compreendendo a partir da perspectiva de moradores e moradoras dos territórios pretos de favelas, quilombos, becos e vielas, assentamentos, ocupações, aldeias e terreiros.

A Revista afirma que territórios pretos produzem conhecimento e ciência fora dos marcos das Universidades que reforçam epistemologias brancas, cristãs, racistas, patriarcais e heteronormativas. Que além de tratar de outras possibilidades de construção de espaços produtores de ciência, trazem consigo, também, potências múltiplas para a utilização de registros de memória como ferramenta mobilizadora para a luta por reparação e justiça racial.

Foto: William Santos

Neste ano, também, a revista trás 3 textos de convidados. Iyá Wanda de Omolu, Ronilso Pacheco, Marinete Silva e Luayra Franco, que carregam em suas trajetórias de organização coletiva, comunitárias e científicas – dentro e fora da academia – caminhos, mecanismos e estratégias para o combate às opressões, para a preservação, produção e garantia de memória, por justiça racial e reparação às arbitrariedades, violências e o terror Estado.

O evento de lançamento foi marcado pela presença dos autores e autoras que tiveram seus artigos de opinião, textos livres, poesias, crônicas, prosas e fotos selecionados para a revista.

Para Letícia, moradora do Rio das Pedras, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, e  estudante do curso de Ciências Sociais da Uerj, que participou do evento para prestigiar sua amiga Victória Lidiana, umas das selecionadas da revista, o projeto foi algo que a interessou bastante, e segundo ela:

 “Vindo hoje e participando do lançamento da revista, é possível perceber um espaço de muito aprendizado por encontrar tanto pessoas acadêmicas quanto de fora da academia. Isso nos dá a possibilidade de pensar diversas formas de movimento para produzir um caminho possível. O caminho para a construção de memória, justiça e reparação, sem esse tipo de articulação,  ele se dissolve! Logo, a inclusão de diversos pontos de vista, seja do Rio de Janeiro e de outros cantos do Brasil, se faz necessário, mesmo que seja impossível reparar ações que já causaram danos a diversas famílias e comunidades. Articular esses registros é também dar a possibilidade de destruir o que não deu certo até aqui, e organizar a construção de novas perspectivas necessárias para a reparação e justiça racial,”

O Encontro contou com uma roda de debate, composta pelos provocadores Patrick Melo – Assessor de Comunicação da IDMJRACIAL, Rhaysa Ruas – Coordenadora de Programas do Instituto Marielle Franco e Erivelto Melchiades – Assessor de Direitos e Sistema de Justiça do ISER; onde ficou claro que a garantia à produção de memória, ligada a múltiplas formas e caminhos para a reparação à vítimas, famílias e comunidades inteiras, é fundamental para o avanço de mecanismos e ferramentas para a efetiva justiça racial a populações historicamente oprimidas pelo Terror de Estado.

Luíza Braz escreveu uma poesia durante nosso encontro, sobre o que representou aquele momento para ela.

Reparação é sair livre pela rua, 

Não me preocupar com a roupa que visto, 

Ou se o meu caminho é guiado por um par de  chinelos.

Reparação é não ter o acesso negado, 

É me sentir incluída nos espaços que aprendi a desviar.

Reparação é me olhar no espelho e me entender como uma mulher negra.

Reparação é ver não somente eu na universidade, mas o meu povo, os meus irmãos e a minha própria mãe.

Reparação é a busca incessante pela minha ancestralidade, que foi escondida nos meus cachos alisados. 

Reparação é não alisar mais os meus fios, 

É me sentir viva, resistente e completa com a minha negritude. 

Reparação é não ter os corpos dos meus  invisibilizados ou mortos.” 

Luiza Braz

Acesse agora nossa revista na íntegra!


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