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Por Fransérgio Goulart

Este texto apresenta  uma  crítica  a  respeito  de como a Branquitude, inclusive a do campo progressista, freia e cria uma barreira para que a radicalidade da luta e proposições dos movimentos sociais não venham a emergir de forma ampla. Afinal, lutas sociais e enfrentamento radical as estruturas de poder, derrubam os próprios privilégios da Branquitude.

Nossa análise parte da materialidade de experiências de movimentos sociais favelados e periféricos que militam e lutam contra a violência policial.

Você já deve ter ouvido várias vezes esta frase  sendo proferida pela branquitude: Você é radical demais! Com esta afirmação a branquitude tenta frear e manter seu protagonismo e privilégios. Esta frase construiu no Brasil que ser radical é uma coisa ruim, por isto o primeiro passo para enfrentar a branquitude é entender basicamente o que é esta dita radicalidade.

Radicalidade é um substantivo feminino que diz condição de radical, do que pertence à raiz. Relativo à raiz, à origem ou ao fundamento de alguma coisa, ou seja, pegando isto podemos afirmar que no caso dos movimentos sociais radicais, são aqueles que lutam contra a estrutura, contra a origem das coisas que nos matam.

Sermos colocados como radical deveria ser um prazer e deveríamos assumir nossas radicalidades, pois trata-se de fazer enfrentamento e luta real e não superficial como muitos fazem.

Os movimentos sociais de favelas e periferias têm produzido radicalidade na luta contra a violência policial. Entretanto, a partir do diálogo com a branquitude -inclusive a dita branquitude progressista, os movimentos sociais e de favelas vão sendo seduzidos e cooptados pelo projeto da supremacia branca.

“ O desafio do século XXI não é reivindicar oportunidades iguais para participar da maquinaria da opressão, e sim identificar e desmantelar aquelas estruturas onde o racismo continua ser firmado. Este é o único modo pelo qual a promessa de liberdade pode ser estendida às grandes massas.”( Angela Davis)

Estas palavras da grande militante negra e comunista Angela Davis trás a radicalidade que a branquitude tenta desconstruir, pois a luta dela é contra as estruturas, diferente da branquitude que no máximo quer propor e fazer reformas e assim continuam a manter seus privilégios.

A história do Brasil nos mostra que em todos momentos as forças de segurança são ferramentas de manutenção de privilégios de uma determinada classe e do capitalismo racial. Logo, as polícias sempre agiram para controlar e genocidar corpos negros e periféricos já que estes corpos trazem desde sempre a marca da radicalidade e a possibilidade de fim destas estruturas que os matam.

Nas favelas e periferias no Brasil, o ódio às forças policiais é rapidamente visto nestas áreas que sofrem cotidianamente com o braço armado do Estado, diferente da Branquitude que habita territórios privilegiados onde a ação policial é outra, e sabemos o porquê disto.

Em 2009, no I Encontro Popular pelo Direito à Vida e por Outra Segurança Pública- ENPOSP e no ano de 2013 no Encontro Popular de Segurança Pública e Direitos Humanos- ENPOP , ambos eventos com massiva participação de movimentos de favelas e periferias em seus cadernos de propostas e recomendações saíram que desejamos o Fim das Polícias.

Esta proposta é radical e enfrenta a estrutura, a raiz do problema , só que com o passar do tempo esta radicalidade foi sendo substituída pela discussão pautada pela Branquitude da Reforma das Polícias, de que a polícia pode ser outra com formação e outras proposições que no fundo só tem um objetivo manutenção de privilégios.

Veja a concretude do privilégio quando em recente entrevista a pesquisadora de Segurança Pública, Jaqueline Muniz disse que: “Pedir fim da PM é uma cloroquina da esquerda1”. 

 A branquitude quer continuar nos colonizando dizendo que quem nos mata pode ser a solução por isto trazer Assata Shakur em nossas reflexões é de suma importância.

“Ninguém no mundo, ninguém na história, nunca conseguiu a liberdade, apelando para o senso moral do seu opressor.”(Assata Shakur)

Ou assumimos nossa radicalidade, ou continuaremos a morrer e ser seduzido pelo discurso e práticas da branquitude que diz que podemos ser incluídos neste sistema que nos oprime e mata todos os dias. 

“É nosso dever luta por nossa liberdade, é nosso dever triunfar, nós precisamos amar e apoiar uns aos outros, não temos nada a perder, a não ser as nossas correntes.” (Assata Shakur)

…… já a Branquitude tem muito a perder.


1 https://www.diariodocentrodomundo.com.br/pedir-fim-da-pm-e-uma-cloroquina-da-esquerda-diz-ao-dcm-jacqueline-muniz-especialista-em-seguranca-publica/

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