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Por Juliana Farias1


Brasil, 2022. Qualquer semelhança com a época em que “educação moral e cívica” era matéria obrigatória nas escolas não é mera coincidência. A tríade “tradição, família e propriedade” segue firme no conjunto dos valores entranhados em determinados segmentos sociais. Dá pra achar desde ufanista no atacado até protofascista no varejo, considerando que nessa conta se junta uma leva de duas a três gerações criadas pelas viúvas – brancas – da ditadura militar.

É nesse contexto que um nicho específico de mercado inspira a primeira frase de muitas propagandas: “você que quer atirar, mas nunca atirou”. A essa figura “que quer atirar, mas nunca atirou” são apresentados “pacotes de experiência” incentivando o primeiro contato com o tiro esportivo em clubes espalhados por todo país. Nesses clubes e escolas de tiro, o pacote é recomendado como a “opção ideal” para iniciantes porque consegue garantir uma duração curta do aluguel do estande (uma hora em geral para níveis básicos), além das instruções básicas de manuseio, o aluguel da própria arma e dos equipamentos de segurança, os alvos e a munição – que varia de acordo com o clube, mas em geral aos iniciantes são oferecidos 20 disparos.

Para os clientes da casa, ou seja, atiradores já associados, há regalias como o pacote promocional “atire de espingarda 12 pump military 3.0”. São anunciados em sites e perfis de redes sociais pacotes promocionais para disparo com armas específicas – fica a gosto do freguês se quer cano longo ou curto, se quer arma de marca nacional ou importada, se quer focar em um tipo específico, podendo escolher entre rifle, pistola 9mm, espingarda 12, pistola .40 ou ainda escolher um pacote que ofereça toda essa lista e as respectivas munições, para o cliente/atirador desportivo experimentar um cardápio variado, como num rodízio de pizza.

Aliás, o rodízio de pizza funciona pra pensarmos sobre outra frase que tem sido bastante usada nas propagandas dos clubes de tiro: “diversão pra toda a família”. Também com o oferecimento de “pacotes”, desta vez “pacotes de passeio”, que podem incluir o transporte, as refeições, enfim, tornar aquele seu dia em família um momento especial. Talvez por isso também haja propagandas recentes de clubes de tiro que também acionam um vocabulário mais conectado ao bem-estar do cidadão de bem, apresentando o tiro esportivo como “atividade extremamente terapêutica e divertida”: tiro ao alvo para relaxar em casal; postagem de feliz dia das mães com uma senhorinha branca segurando uma pistola; e, como no Rio de Janeiro a criatividade bélica também é aguçada, foram criadas promoções de clubes de tiro em articulação com o Rock in Rio, nas quais a pessoa podia receber descontos em cursos ou pacotes se apresentasse o ingresso Rock in Rio. Determinadas vertentes da música há tempos são capturadas pela cultura armamentista, mas essa promoção inovou bastante.

O acesso aos clubes também tem sido facilitado através de estudos dos hábitos de lazer dos possíveis clientes, o que tem produzido uma nova leva de clubes de tiro dentro de shoppings. Não, não estou confundindo com arenas de airsoft, se foi o que você pensou. Ainda que arenas de airsoft também sigam ampliando seu público na esteira desse processo de atualização da lógica binária atirador X alvo enquanto repertório cultural bélico-neoliberal, há uma diferença determinante: nessas arenas não são utilizadas armas de fogo. A preocupação com as arenas de airsoft está conectada com essa replicação das situações de combate, numa busca incessante pelo “realismo” através do som produzido pelos tiros e o alcance dos mesmos – que, quando comparados ao paintball, por exemplo, apresentam inúmeras vantagens na alimentação de simulacros.

E como falar de arma de fogo é falar também de munição, o aumento da venda de munições cresce no mesmo ritmo acelerado do crescimento dos CACs e seus clubes. E as empresas nacionais como a Taurus e a CBC (Companhia Brasileira de Cartuchos) não estão apenas próximas de todo esse processo, mas são parceiras e patrocinadoras dos clubes com as maiores listas de “sócios”. Os sócios podem inclusive contratar serviço de despachante no próprio clube pra não precisar se preocupar com a burocracia de se tornar CAC e/ou adquirir armas e munições. Muitos clubes e escolas de tiro inclusive já possuem sua própria loja de armas, pra ficar tudo em casa.

“Em casa”, “em família”, “segurança da família” é um dos focos pra atrair desde curiosos até convictos pró-armas. O mesmo clube de tiro que oferece “diversão pra toda a família” também oferece segurança pra família através da venda de cursos de “home defense”, porque o inglês é parte das estratégias de marketing – dos clubes de tiro e das empresas de segurança privada. No clube você pode comprar um pacote de “day use” para passar o dia no estande de tiro, na empresa de segurança privada você pode contratar “soluções completas de facilities” para portarias e controle de acessos a condomínios, por exemplo.

Muitas conexões entre CACs e agentes de segurança passam pelas atividades oferecidas nos clubes e escolas de tiro. O termo “pista quente” muito utilizado pelos CACs também é expressão corrente entre agentes de segurança pública ou privada (não aqueles recém-concursados ou recém-contratados que vão atuar nas pistas, na rua, nas lojas, mas também os policiais penais), em especial os que estão em início de carreira, são mais jovens e fazem uso das redes sociais para publicizar seu crescimento na carreira, compartilhar fotos com as fardas novinhas, coletes à prova de balas, coturnos e, obviamente, fotos nas quais aparecem efetuando disparos em alvos não humanos. 

As postagens nas redes sociais são peça-chave na atualização desse imaginário pró-armas. Exibições de fotos das armas e munições dispostas em cima de superfícies coloridas, bem instagramáveis, fotos de visitas a lojas e feiras de armas, destacando as novidades do mercado, além de um número gigante de vídeos que mostram as armas em funcionamento (em lugares vazios), ou mostram um homem em performance, como um treino para reagir a um assalto, no qual o sujeito saca a arma e atira na cabeça de um alvo/boneco.

Tem postagens sobre promoção do curso de pistola nível II logo após uma postagem sobre o dia do Exército brasileiro. Os dias 7 de setembro, o dia do soldado, dia do policial rodoviário federal, o dia da marinha do brasil, o dia da artilharia recebem postagens do mesmo padrão da postagem sobre o dia do atirador esportivo, que é 03 de agosto. Algumas lojas parceiras de clubes de tiro fizeram “Festival Independência” durante o mês de setembro deste ano e de 2021, com promoções de armas de fogo. A própria Taurus criou uma coleção específica esse ano: a coleção Taurus Independência comemorativa ao Bicentenário.

É nesse circuito que se estreitam as distâncias entre um agente de segurança privada ou pública, um CAC, um nerd que joga “Call Of Duty: Modern Warfare” ou outro jogo de tiro que associe o alvo aos territórios palestinos ou às favelas brasileiras. O crescimento de CACs e seus clubes, será tema de um dos boletins do projeto Segurança Privada, Milícias e Racismo Institucional da IDMJR que será lançado em breve,  se alimenta tanto dessas conexões que localizam inimigos específicos bem concretos, quanto dessas propagandas que parecem suavizar o mercado da guerra colocando o tiro como atividade recreativa, como opção de esporte e lazer. Tem atirador profissional que vira influencer e tem influencer que vira sniper no airsoft, tem instrutor de tiro que vira garoto propaganda, tem policial youtuber e assim a vida segue no país onde tem miliciano que é político, policial que é dono de empresa de segurança privada e sniper da PM que mata morador de favela e sobe de patente.


1 Antropóloga, consultora do projeto Segurança Privada, Milícias e Racismo Institucional da IDMJR e pesquisadora do CIDADES-Núcleo de Pesquisa Urbana da UERJ

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