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MÃE BEATA DE IEMANJÁ: MEMÓRIAS E RESISTÊNCIAS NA BAIXADA FLUMINENSE


Por Fransérgio Goulart

Não é possível recontar a história de luta contra a brutal violência do Estado na Baixada Fluminense sem falar de uma figura histórica da região, que para além da sua enorme contribuição religiosa também se destacou pelo seu enfrentamento e combatividade em defesa dos direitos humanos em áreas faveladas e periféricas: Mãe Beata, uma liderança religiosa, militante, escritora e intelectual que construiu um legado de luta e resistência na Baixada Fluminense.

Beatriz Moreira Costa é conhecida como Mãe Beata de Iemanjá. Nasceu em 20 de janeiro de 1931, em Cachoeira, na Bahia, Brasil. Era filha de Iemanjá, orixá das águas e mãe dos peixes e de Exu, orixá mensageiro e das encruzilhadas. Foi filha de santo de Mãe Olga do Alaketo do Ilê Maroiá Láji. Em 1969, separou-se do companheiro, saiu de Cachoeira e foi para o Rio de Janeiro, na qual trabalhou como atriz e figurinista em novelas de Televisão, até sua aposentadoria.

Em 20 de abril de 1985, Mãe Olga do Alaketo consagrou Mãe Beata de Iemanjá como Mãe de Santo do Ilê Omiojuaro, em Nova Iguaçu na Baixada Fluminense. Mãe Beata foi uma aguerrida militante pelos direitos humanos, em especial os direitos das mulheres negras. Apesar de muitos falarem  da sua luta pela saúde da mulher negra e de enfrentamento ao racismo religioso, Mãe Beata foi uma das lideranças da Baixada Fluminense que mais incidiram contra a violência de Estado na Baixada Fluminense no período de 1990 até os anos 2000, décadas de sistemáticas chacinas cotidianas na Baixada.

Em 1992 participou do Fórum Global/92 como cicerone e mentora religiosa no Encontro Mundial pela Paz, promovido pelo MIR/RJ e em 1994 em seu terreiro, o Ilê Omiojuaro promoveu diversos debates, articulações e eventos sobre os impactos do racismo e da violência que assola a Baixada, como por exemplo, o Fórum de Debates “Cidadania x Violência”.

Ademais, sempre preocupada com o impacto do racismo estrutural, em especial para os jovens negros e /ou pobres promoveu em seu terreiro vários cursos de qualificação profissional. Mãe Beata também foi a fundadora e atualmente presidenta de honra da Ong Criola (in memorian). 

Fundada em 1992, a organização atua na construção de uma sociedade onde os valores de justiça, equidade, solidariedade são fundamentais. Durante quase três décadas, a Criola reafirma que a ação transformadora das mulheres negras é essencial para o bem viver de toda a sociedade brasileira. A Ong Criola possui como missão promover instrumentos para o enfrentamento ao racismo, sexismo, lesbofobia e transfobia com foco em mulheres, adolescentes e meninas negras para o desenvolvimento de ações voltadas à melhoria das condições de vida da população negra e das mulheres negras em especial.

“Minha história me dói por dentro, mas é a causa de minha luta”

(Mãe Beata de Iemanjá)

Um pouco antes de sua partida carnal, Mãe Beata recebeu no Ilê Omiojuaro em 2016, uma das atividades do I Encontro Internacional denominado Julho Negro acolhendo o movimento negro dos EUA Black Lives Matter, movimento de mães e familiares vítimas da Violência de Estado do Brasil, Baixada e RJ e outros movimentos sociais.

O encontro tinha como objetivo articular internacionalmente a luta contra a militarização e o racismo. No ano 2 do Julho Negro em 2017, Mãe Beata foi uma das homenageadas por toda sua trajetória de luta.

Um dos momentos mais emocionantes e fortalecedores do encontro foi quando luta, dor, cura e resistência se materializaram no instante que o Reverendo Dr. John L. Selders Jr. ( Movimento Black Lives Matter) junto com Mãe Beata, conduziram um cântico disparado pelo pastor negro que dizia:

“Eu vou cantar porque a minha espiritualidade, a minha prática religiosa e o meu ativismo convergem para a música que compartilhamos em comunidade”.

Apesar das barreiras linguísticas, as pessoas presentes cantaram junto a canção Gospel Speak To My Heart e a canção de Liberdade Ain’t Gonna Let Nobody Turn Me Around. Mostrando que não há barreira linguística que possa impedir a conexão com a ancestralidade do povo negro, que segue resistindo e sobrevivendo em busca da construção de uma outra forma de sociedade para todas, todos e todes.

O legado de combatividade e justiça racial de Mãe Beata se mantém vivo!

Axé!

“Sou uma mulher negra, ialorixá de uma religião trazida pelo Brasil por construtores dessa nação, que foram os negros africanos” (Mãe Beata de Iemanjá)


 

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