por IDMJRacial
A Campanha Desinveste Já que propõe a realocação de orçamento da produção de morte das polícias para políticas sociais, organizada pela Iniciativa Direito à Memória e Justiça Racial (IDMJR), tem mobilizado a classe trabalhadora em todo o estado do Rio de Janeiro. Em uma iniciativa ousada e necessária, a campanha denuncia o investimento desproporcional na segurança pública em detrimento de áreas essenciais como educação, saúde, moradia e cultura. Em 2025, a Proposta de Lei Orçamentária Anual (PLOA) do estado destina R$19 bilhões à pasta da segurança pública, o segundo maior orçamento do Rio de Janeiro. Esses recursos sustentam uma política de militarização e repressão, priorizando armamentos, blindados e helicópteros, enquanto serviços básicos permanecem sub financiados.
Para desnaturalizar essa política de morte, a IDMJR criou a Campanha Desinveste Já com vários materiais que traduzem os números frios do orçamento em exemplos palpáveis. Um fuzil policial custa R$28 mil, valor que poderia financiar 36.842 merendas escolares. Um caveirão blindado, avaliado em R$652 mil, equivale ao custo de duas ambulâncias. Por meio de vários materiais de comunicação: botons, outdoors,cartazes, adesivos e panfletos, a campanha busca expor o impacto dessas escolhas orçamentárias e engajar a população no debate sobre o desinvestimento nas polícias.
Mobilizações e Adesão Popular
As ações da campanha já foram realizadas em oito localidades estratégicas do estado, abrangendo diferentes regiões: Zona Norte(Madureira), Zona Oeste( Campo Grande e Santa Cruz), Centro(Central), Zona Sul(Copacabana) e Baixada Fluminense(Nova Iguaçu e Duque de Caxias e também em São Gonçalo e Niterói. Durante as mobilizações, a equipe da IDMJRacial apresentou os dados à população, distribuiu seus materiais de comunicação e dialogou sobre os impactos desse modelo de segurança pública.
Entre os trabalhadores que mais se identificaram com a campanha estão os camelôs. Diariamente expostos à violência policial, esses trabalhadores conhecem de perto o significado do controle e da repressão estatal. Muitos relataram casos de extorsão, abusos e agressões, desvelando como a lógica de militarização não os protege, mas os criminaliza.
Um relato que marcou as mobilizações veio de um camelô que perdeu o irmão pelas mãos da polícia:
“Meu irmão era trabalhador igual eu, nunca fez nada de errado. O policial deu um tiro de fuzil nas costas dele. Ele tava indo buscar mercadoria pra trabalhar na rua.”
Outra camelô compartilhou a dor de perder o filho em um caso de violência policial. Esses relatos exemplificam como o estado opta por uma política de genocídio, voltada contra as populações negras e periféricas.
O Debate Abolicionista e a Realidade dos Trabalhadores
A adesão dos camelôs à campanha “Desinveste Já!” revela que, mesmo sem se identificarem formalmente como abolicionistas, muitos trabalhadores já expressam na prática uma visão que se aproxima desse movimento. Ao questionarem a legitimidade das polícias – instituições que deveriam garantir segurança, mas desde a sua criação promovem violência – os camelôs ampliam o debate abolicionista no Brasil.
Esses relatos de violência vividos pelos camelôs apontam não apenas para a brutalidade policial, mas também para a necessidade urgente de repensar as instituições de segurança pública, o que ressoa com as propostas do movimento abolicionista.
A abolição das instituições opressoras, como defendem intelectuais como Ruth Gilmore, não significa simplesmente extinguir essas instituições, mas redirecionar os recursos para políticas que previnam a violência e promovam a justiça social. Para Gilmore, o abolicionismo não se restringe ao simples desmantelamento de instituições opressoras, como as prisões e as forças policiais. Ele envolve, principalmente, a criação de condições que garantam uma vida digna e livre para todos, removendo as estruturas que perpetuam a violência e a marginalização.
No contexto brasileiro, marcado por uma histórica criminalização da pobreza, a existência das polícias está profundamente ligada à manutenção de desigualdades estruturais. Os camelôs, ao denunciarem a violência que enfrentam cotidianamente, ajudam a revelar a verdadeira face das polícias: instituições que, longe de protegerem, perpetuam a exclusão, a exploração e o racismo.
Para esses trabalhadores, a polícia não representa segurança, mas ameaça. Extorquidos, perseguidos e violentados, muitos camelôs questionam a lógica de um estado que prefere investir bilhões em repressão, enquanto negligencia direitos básicos como melhores condições de trabalho, saúde, educação e moradia. Suas vivências mostram que, em vez de fortalecer as polícias, é necessário redirecionar os recursos para políticas públicas que promovam dignidade e igualdade.
A Campanha “Desinveste Já!” e o Futuro do Debate
A campanha “Desinveste Já!” não apenas denuncia as contradições do orçamento público do Rio de Janeiro, mas também abre caminho para debates mais amplos sobre o modelo de segurança pública no Brasil. Ao propor o desinvestimento nas polícias, a IDMJR e seus aliados reforçam a necessidade de questionar as prioridades do estado e demandar políticas que valorizem a vida.
Os trabalhadores camelôs, com suas histórias de resistência e luta, tornam-se vozes fundamentais nesse processo. Sua participação na campanha evidencia que o debate abolicionista não é uma pauta distante, restrita a círculos acadêmicos ou ativistas, mas uma demanda que emerge das próprias comunidades mais afetadas pela violência policial.
Enquanto o estado insiste em financiar uma política de morte, a campanha “Desinveste Já!” não só denuncia essa realidade, mas também aponta alternativas viáveis. Investir em saúde, educação, moradia, cultura e melhores condições de trabalho não é apenas uma resposta à violência, mas uma transformação estrutural necessária para garantir a segurança pública e a dignidade das favelas e periferias. No Projeto de Lei Orçamentária Anual – PLOA 2025 conseguimos retirar 103 milhões da Segurança Pública e realocar para políticas de trabalho, educação, direitos humanos e combate à pobreza.
Ruth Gilmore argumenta que as lutas locais e cotidianas são cruciais porque representam ensaios para a abolição, testando na prática novas formas de organização social.
A redistribuição de recursos que substituem estruturas opressoras são novos dispositivos abolicionistas como constrói a IDMJRacial. Nesse sentido, a luta pelo desinvestimento das polícias se alinha a esse pensamento, funcionando como um exercício abolicionista ao propor alternativas concretas para reverter a lógica punitivista em favor de políticas que promovam a justiça social e o cuidado coletivo.
Para IDMJR, isso inclui repensar como a sociedade organiza seus recursos e desenvolve estruturas que promovam o cuidado e a justiça racial, em vez de perpetuar a punição e a política de genocídio da população negra. Seguiremos mobilizando, conectando diferentes segmentos da sociedade e fortalecendo a luta por justiça racial e social.
