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BAIXADA FLUMINENSE: LUTAS DE MULHERES NEGRAS NO COTIDIANO INVISÍVEL DA RESISTÊNCIA


“Eu sigo no trabalho de formiguinha, ali, porque todo dia tem uma mulher que tem algo urgente para tratar.” 

Em 25 de Julho comemora-se o dia de Mulheres Negras, Latino Americanas e Caribenhas, junto com Tereza de Benguela. Rememorar as lutas é sempre fundamental para analisarmos os caminhos já percorridos. Neste dia de muitas mulheres, a Iniciativa Direito à Memória e Justiça Racial traz as reflexões de 3 mulheres que atuam no cotidiano das periferias e são parte da continuidade das lutas históricas que emergem sempre com urgências que garantem a vida.

Nivia Raposo, mãe do Rodrigo (in memorian) e do Thiago, articuladora de território, historiadora e nome importante nesse debate, apresentou perspectivas críticas e reais sobre atuação nestes espaços. Confere abaixo:

Monique Rodrigues: Antes de desenvolver ações nesses lugares, vocês pensam em estratégias de proteção? Nos fale um pouco disso? 

Nívia Raposo: Normalmente eu não penso em estratégia de proteção, não, e acho que minhas companheiras também não fazem essas coisas, porque a gente tem o objetivo de atender a pessoa que está precisando. Então primeiro a gente atende essa pessoa, depois a gente vai pensando e traçando o que a gente pode fazer pra poder nos proteger, porque quando a gente ajuda uma pessoa, acaba que os olhos também se viram contra a gente. Ir mapeando os territórios também é uma estratégia, ir vendo quem é quem. Às vezes tem pessoas muito próximas, isso que é o mais difícil na Baixada Fluminense, porque não vem de fora, o tal inimigo, não é oculto, já está no território, nos conhece. Então tem que mapeando as pessoas, porque são vários grupos que se articulam contra a gente.

Monique Rodrigues: Como desenvolver ações e projetos sociais em áreas militarizadas?

Nívia Raposo: As ações podem ser desenvolvidas a partir das articulações com coletivos locais. Sempre em conjunto, de maneira que envolva a comunidade. Normalmente, essas ações e projetos sociais precisam ser estruturados com cautela, tentando atender uma demanda que gere alguma transformação ou apropriação/ ocupação da população. Importante tentar uma ressignificação do espaço atendido.  Não sei se consegui me fazer entender.

Monique Rodrigues: Você já deve ter convivido e visto assassinatos produzidos pelo Estado onde mora. Como é viver com essa memória, e como tentam ressignificar essa dor?

Nívia Raposo: Todos os dias rememoramos as violações do Estado. Percebo que as escarificações( marcas que eram motivos de orgulho/ manutenção de cultura) dos nossos ancestrais foram apagadas com as marcas de ferro em brasa, tal qual o gado das fazendas. A memória é a cicatriz que insiste em sangrar, é a nova marca do ferro em brasa. Quando faço do meu luto uma luta é porque não tenho alternativa.  Não vou ficar em casa chorando . Tenho que ser a voz do meu filho. Cada familiar pode usar sua voz para fazer o mesmo. Acredito que algumas instituições podem amplificar essas vozes.  Tenho a necessidade de ressignificar a dor. Uso a memória individual dos familiares para mostrar quem era aquele menino/a. Cada dia os territórios militarizados têm crescido, porém, esses territórios têm vergonha de serem reconhecidos como territórios milicializado. O Estado é o maior violador de direitos. Afinal, quem é militar sempre tenta manter uma postura acima de qualquer suspeita. Deveria ser considerado uma desonra, o braço armado do Estado que se utiliza da fé pública contra a população.

As lutas que as mulheres negras organizam alinham questões estruturais e sistêmicas, sobretudo nos contexto de justiça racial. Por isso essa urgência em debater com a maior quantidade de pessoas é definidora, e para isto acontecer, é necessário que se conheça profundamente o território, seus cotidianos e limites.

Monique Rodrigues: Você consegue identificar dentro da sua realidade uma proposta para enfrentar essa Violência do Estado nesses territórios militarizados?

Nívia Raposo: Baixada Fluminense é mais complicada para enfrentar as violações do Estado pq tudo é muito invisibilizado. As pessoas estão aterrorizadas pelo medo. Ainda assim conseguimos dialogar com a população. O trabalho é de formiguinha. Tenho certeza que não vou ver o resultado do trabalho. Tudo será a longo prazo

Mas, antes de tudo acredito que incluindo parceiros em determinados espaços podemos conseguir algumas pequenas vitórias

O enfrentamento que mulheres negras exercem nos seus territórios de vida são um compromisso firmado com as memórias que elas não deixam ser esquecidas. 

As periferias se alinham em lutas históricas que são muito parecidas e por isso Mulheres Negras, Latino Americanas e Caribenhas são tão importantes de serem celebradas. Esse dia 25 de Julho contém a ação coletiva de muitas mulheres que jamais deixarão de existir e nesse contexto atual de pandemia mundial, têm garantido a vida de inúmeras pessoas. Igualmente em memória à Tereza de Benguela trazemos para esse debate a constante luta pela liberdade, pois como podemos perceber com a fala da nossa entrevistada Nivia Raposo, a Baixada Fluminense é um território com muitas demandas.


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