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EDITORIAL: POR QUE PRECISAMOS FALAR DE POLÍTICA DE DROGAS NA BAIXADA FLUMINENSE?

Por Fransérgio Goulart


Em recente relatório produzido pela IDMJR sobre o impacto de 01 ano de suspensão das operações policiais na Baixada Fluminense expedida pelo Supremo Tribunal Federal, ao monitorarmos as operações policiais, nos deparamos que 90% das operações policiais realizada pela PM tiveram como motivações a apreensão de drogas e armas, encarceramento e tráfico de drogas, ou seja, o Estado a partir das polícias produzem a morte e o encarceramento da população negra sobre o discurso de guerra as drogas, que na real é guerra aos negros e periféricos.

Precisamos aqui colocar esse debate não na lógica da Segurança Pública, mas na lógica da Saúde Pública.

Sabemos que a indústria de drogas e armas no mundo está entre os maiores negócios do mundo, que está totalmente intrincada com a questão da lavagem de dinheiro e a consolidação de grandes riquezas de determinadas frações de classe. Aqui vale uma indagação: você já viu na Forbes algum milionário varejista de drogas favelado? Não!

Mas, conhece grandes empresários sendo retratados na Forbes como um case de sucesso, só não é dito que muitos desses são os grandes acionistas desse comércio internacional de drogas e armas. Logo, eles lucram diretamente com o comércio internacional de armas e drogas mesmo com a defesa de um discurso moralista e criminalizante sobre drogas, ainda assim são protagonistas na política armamentista em todo o mundo. 

Um breve histórico da cultura proibicionista das drogas consolidada pela construção dos inimigos e da moral cristã se faz necessário.

 As drogas que hoje são ilícitas, como a maconha, a cocaína e a heroína,foram proibidas, em âmbito mundial, no início do século XX. Nos anos 1970, a repressão aos produtores, comerciantes e consumidores dessas substâncias foi intensificada, com a introdução de uma política explicitamente fundada na guerra, denominada “guerra às drogas” liderada pelos EUA pelo ex-presidente Richard Nixon, que teve um papel indutor e impulsionador por todo mundo.

Anos se passaram e chegamos até os dias atuais, e essa política vem se revelando incapaz de diminuir a disponibilidade de oferta das substâncias então proibidas.

Aqui queremos destacar agora o papel da ideologia de uma moralidade cristã na consolidação no Brasil na política proibicionista e como estabelecermos um diálogo com territórios das periferias da Baixada Fluminense com presença de igrejas neopentecostais massiva, consolidando esse projeto político com discursos como: a maconha é a erva do capiroto ou pó do capeta.

Uma avó ou mãe de um jovem que usa uma dessas drogas quer proteger seu filho ou familiar é compreensível e esse discurso da moral cristã faz parte do seu cotidiano, aqui se coloca uma tarefa histórica de não desistirmos dos nossos e nossas e construir um projeto potente de oportunizar outras formas de ver a questão das drogas , principalmente da centralidade da saúde pública, do racismo e de entender a lógica capitalista de acumulação de riqueza a partir da cadeia produtiva da indústria de armas e drogas.

Ninguém faz guerra a um pé de maconha ou outra droga, pois a guerra às drogas não é exatamente uma guerra contra as drogas, ou seja, a guerra não é contra psicotrópicos, e sim com relação às pessoas. Já que historicamente quem faz uso abusivo de drogas é a população negro, bem como, são corpos negros que estão colocando suas vidas à disposição do varejo de drogas. 

Cada um que está lendo essas ponderações, já conversou com um familiar seu ou vizinho na Baixada Fluminense sobre a questão?

Você não vê uma guerra ou operação policial na proximidade a uma fábrica de cerveja hoje, certo? Não, mas na década de 20 e 30 nos EUA houve a proibição do álcool e muita repressão policial e assassinatos aconteceram. Esses números só caíram após a não proibição e por colocar o usuário do álcool como uma questão da saúde pública.

Essa política proibicionista da produção, do comércio e do consumo das drogas tornadas ilícitas também trás sobre sua justificativa também a proteção à saúde. Mas, isto cria um paradoxo pois é a própria proibição que causa maiores riscos e danos a essa mesma saúde.

Precisamos iniciar e ampliar um debate com as questões aqui levantadas não com a dualidade cristã do certo ou errado, mas a partir do diálogo entre os nossos e nossas partindo das histórias e vivências, criando e fomentando a dialética de uma diversidade de opiniões sobre a questão.

Diante disso, a IDMJR se desafiando mais uma vez vem convidar moradores/as da Baixada Fluminense a conhecer o projeto Política de Drogas, Racismo e Saúde Pública que estamos iniciando a partir de uma premissa: o diálogo e o conhecimento dos nossos e das nossas. 

Esse projeto se desenvolverá a partir de 03 eixos : um de pesquisa, onde construiremos uma pesquisa inédita na Baixada Fluminense sobre apreensão de drogas e armas; o segundo eixo de formação, com uma Residência que se realizará com jovens negros moradores da Baixada e o 3° eixo de Comunicação com a construção de uma campanha de comunicação sobre o tema construída por jovens participantes da residência, da equipe da IDMJR e da organização Movimentos.


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