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A RELAÇÃO DO ESTADO E A POLÍTICA DE MORTE


Por Fransérgio Goulart

No penúltimo episódio da coletânea da nossa série jornalística com um dos maiores especialistas no tema sobre Branquitude no Brasil, o Professor e Doutor Lourenço Cardoso, vamos falar sobre a relação do Estado e a Política de morte nas favelas e periferias.

Lourenço Cardoso dialoga sobre o debate de Estado e Segurança Pública a partir da seguinte afirmação da IDMJR: Como o conceito de Branquitude pode colaborar na discussão e formulação de políticas públicas de Segurança Pública?

Lourenço Cardoso: Ele é mais instrumento analítico, um dispositivo analítico, útil para colaborar com a análise social. Trata-se de mais um recurso que sendo está sendo utilizado pela academia e os movimentos sociais de forma mais recorrente. Para ilustrar, com o conceito desigualdade racial podemos apontar o elemento social que causa a discrepância entre pessoas e grupos. Neste caso, o elemento social que causa a desvantagem ao negro é a raça (raça-etnia).

Diante dessa constatação com base nesses dados técnicos-científicos, a administração pública elabora políticas públicas para minimizar a injustiça social ocasionada pela raça. Estou mencionando a gestão pública em todas as esferas municipal, estadual, federal. As empresas privadas de forma semelhante podem verificar o racimo institucional em seus estabelecimentos, desse modo, enfrentarem esse o problema racial em favor de justiça social/racial nos seus espaços.

O exemplo que coloquei constata o racismo estrutural, institucional através de relatórios científicos com dados qualitativos e quantitativos. Isto é, o negro ganha menos do que o branco, isso acontece porque é negro. O Estado ciente disso, com relatórios sobre esse problema social tem que atuar para procurar corrigir, promover justiça social (justiça racial). A branquitude será mais um elemento para colaborar com a análise. Uma apreciação que tradicionalmente é focada no negro. Por exemplo, o conceito desigualdade racial mostra a desvantagem para o negro, as pessoas ficam com esse foco, invisibilizando o branco.

Algo que parece absurdo, pois o branco também é um dado que foi capturado. A mesma categoria desigualdade racial visibiliza a vantagem racial para o branco, vantagem por ser branco. Podemos inclusive verificar que em determinadas situações a vantagem branca ocorre diretamente ligada a desvantagem negra. A branquitude como instrumento analítico favorece uma análise mais larga e obstaculiza o silenciamento a respeito do branco, a vantagem racial, a vantagem/privilégio por ser branco.

A branquitude e a formulação de políticas públicas de Segurança Pública? No filme do Spike Lee chamado “A Hora do Show” há uma cena que me chamou muito a atenção. Um grupo de jovens vestidos como rappers (gangsta rap), uns quatro negros e um branco. Eles estavam conversando, era noite, quando eles foram parados pela polícia. Não havia motivo aparente. A polícia ordenou que eles levantassem as mãos e se encostassem na parede. Foram muitos truculentos. Altas horas da madrugada. Rua vazia. Os jovens estavam totalmente vulneráveis, estavam entregues nas mãos da polícia. Um policial notou o jovem branco e mandou que fosse embora. O jovem branco queria ficar, insistiu.

O policial gritou para que ele fosse embora imediatamente. O jovem branco começou se afastar, andou pouco passos. Não muito longe, escutou a saraivada de tiros que foram disparados contra os seus amigos, todos negros. Somente ele sobreviveu, isto ocorreu porque o policial branco mandou que ele igualmente branco fosse embora. Ele seria um jovem andando em más companhias.

Portanto, o dispositivo analítico branquitude utilizada na Segurança/Insegurança mostra de forma evidente a vantagem racial branca por ser branco. Isto pode significar a vida. Permanecer vivo.  A branquitude como instrumento analítico indicará a tragédia que é morte à bala pelo fato de ser negro, ao mesmo tempo em que ocorre a garantia de vida por ser branco.

A branquitude como mais um recurso que serve para revelar  que a instituição policial é branca, mesmo que possuía em seus quadros não-brancos.


*Professor do Instituto de Humanidades na Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab). Doutor em Ciências Sociais pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) – Campus de Araraquara. Coorganizador do livro Branquitude: Estudos sobre a identidade branca no Brasil. Curitiba: Editora Appris, 2017.

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