Ir para conteúdo

A BRANQUITUDE BRASILEIRA


Por Fransérgio Goulart

Durante um mês a Iniciativa Direito à Memória e Justiça Racial conversou e realizou uma entrevista com um dos maiores especialistas no tema sobre Branquitude no Brasil, o Professor e Doutor Lourenço Cardoso*.

O que seria apenas uma entrevista no tema Branquitude e Segurança Pública, tornou-se em uma série jornalística dada a tamanha complexidade dos temas tratados e a importância dos debates sobre supremacia branca e violência policial.

Iniciamos o primeiro episódio desta coletânea de entrevista falando sobre a branquitude brasileira. Lourenço Cardono nos explica a definição de branquitude e como é estruturante nas relações de hierarização social desde a fundação da formação social brasileira, segue abaixo a entrevista na íntegra.

IDMJR: Você é um dos maiores especialistas sobre Branquitude no Brasil. Dito isso poderia nos explicar o que seria Branquitude? E também o conceito que criou de Branquitude Crítica e Branquitude Acrítica?

Lourenço Cardoso: Na minha tese defino a branquitude da seguinte forma: Em termos genéricos, a branquitude significa pertença étnico-racial atribuída ao branco. Podemos entendê-la como o lugar mais elevado da hierarquia racial, um poder de classificar os Outros como não-brancos, dessa forma, significa ser menos do que ele. Ser branco se expressa na corporeidade, isto é, a brancura e vai além do fenótipo. Ser branco consiste em ser proprietário de vantagens/privilégios raciais simbólicos e materiais. Para acentuar um aspecto diria que, ser branco consiste em ter vantagem racial por causa desse pertencimento. Para que possamos ilustrar exemplos de vantagens raciais, é comum os brancos participarem de eventos culturais de tradição negra: capoeira, samba, etc. Vamos problematizar dois aspectos o estético e o econômico. É fácil observar que no momento que uma pessoa é colocada em evidência, o branco será aquele que ganhará destaque. Na hora de aparecer na foto, o branco é escolhido e o negro preterido.

Mesmo como representante de coletivos de tradição negra, grupos de samba por exemplo. O branco pode ser escolhido para conceder entrevistas, pois é considerado como: aquele que possui a melhor estética, mais inteligente e habilidoso para se comunicar. Se o negro ganhar no critério como mais talentoso para se expressar verbalmente, perderá no item estética. Nessa ilustração, a estética será priorizada, dirão que a pessoa “fotografa melhor” por isso são preferidos para as mídias audiovisuais. Isto é, ser branco significa fotografar melhor (possuir a estética adequada). O destaque branco? Pelo fato de a branquitude ser o local de evidência, eles quase monopolizam as campanhas publicitárias. Isso resulta em ganhos monetários. Portanto, ganha dinheiro pela questão da estética, tem lucro por ser considerado o único, realmente, belo ou mais bonito.

Na realidade, o branco na sociedade capitalista será aquele que ganhará mais dinheiro com o produto artístico cultural ou qualquer outra coisa criada/inventada pela negra e o negro. Ser branco é uma vantagem racial mais do que estética. Ser branco é ter vantagem econômica. Ser branco é ser vantagem econômica também em virtude da desvantagem econômica do negro. Ser branco é lucro e isso pode ocorrer em virtude do prejuízo de ser negro. Ser branco significa obter com maior facilidade empréstimos financeiros. Ser branco significa possuir crédito. Qual crédito? O crédito é ser branco, é ser confiável, principalmente, se comparado ao negro.

Qual bem o branco possui que serve de garantia? O bem que será utilizado para negociar o empréstimo? O bem seria o fato de que ele é branco, seu pertencimento étnico-racial gera confiança.  Isto se comparado ao negro, ao se comparar com outro branco não chegamos ao mesmo significado e conclusões. O quesito classe passa a atuar. Na comparação com o negro, o fator raça atuará e assim como a classe além de outros elementos. Porém, o branco já possui crédito, possui valor por ser branco. Reitero, quanto ao negro não podemos considerar tal hipótese, em muitos casos, acontecerá o oposto prefeito. A confiança é branca, a desconfiança é negra.

BRANQUITUDE CRÍTICA E BRANQUITUDE ACRÍTICA

Em minha dissertação de mestrado, defini “branquitude crítica” como aquela pertencente ao indivíduo ou grupo de brancos que desaprovam “publicamente” o racismo. Por outro lado, nomeei “branquitude acrítica” a identidade branca individual ou coletiva que argumenta a favor da superioridade racial. Para ilustrar diria que alguns pesquisadores e ativistas brancos antirracistas exemplificam a branquitude crítica. Enquanto brancos de pensamentos e/ou pertencentes a grupos de ultradireita, os integrantes de grupos neonazistas, membros da “neo”-KuKluxKlan, outros brancos que comungam com o ideal da superioridade racial, mesmo em silêncio, representam a branquitude acrítica. Em resumo, todos aqueles que não desaprovam o pensamento e as práticas racistas. Em relação ao critério de distinção, levei em consideração o seguinte fenômeno. Nem sempre aquilo que é aprovado publicamente é ratificado no espaço privado. No ambiente particular, por vezes, opiniões ou teses podem ser desmentidas, ironizadas, minimizadas. Especialmente, quando se trata de questões referentes ao conflito racial.

Quando propus o conceito, em 2008, a ideia central era destacar que não estávamos pensando a identidade branca de ultradireita por causa da dificuldade metodológica de alcançar essas pessoas. A partir de então, o conceito apareceu em todos os trabalhos seguintes, fizeram, fazem, diversas interpretações. Portanto, tem se mostrado relevante academicamente por enquanto. A questão da desaprovação pública? No mundo ocidental, após a Segunda Guerra Mundial, no espaço público, todos se colocam contra o racismo. Porém, a atitude pode ser hipócrita, um dado que pude verificar na pesquisa de campo que realizei no doutorado. Atualmente, com a Internet, ocorre a revelação da branquitude acrítica de forma mais recorrente. Muitos brancos motivados pelo suposto anonimato têm praticado o racismo que antes escondia. Vivemos uma onda reacionária, nesses últimos anos, isto resulta em maiores possibilidades para estudar a branquitude acrítica, inclusive, o seu desejo de poder.

A Internet é a principal base de potencialização da branquitude acrítica no mundo. Os brancos de ultradireitas, brancos neofascistas, neonazistas. Apontei a relação entre a Internet e a branquitude acrítica justamente em meados de 2008 na pesquisa do mestrado. Podemos observar que as mídias “não tradicionais” estão em tendência de crescimento, isto se observa também neste ano. O crescimento dessas mídias em ritmo contínuo coloca em questão o futuro das mídias “tradicionais”? O futuro da mídia veiculada no papel? A mídia tradicional (no papel) seria um passado superado que ainda persiste no presente? Um indicativo de um fenômeno residual? Enfim, a branquitude “acrítica” não necessita do que estamos chamando de “mídia tradicional”. A mídia tradicional possui a pressão externa em termos legais.

Por exemplo, a mídia tradicional enfrenta o questionamento se dada publicação é legal ou ilegal? Além da pressão externa, em termos, ético e moral. Até que ponto a veiculação de eventos de brancos de ultradireitas colaboram para o fortalecimento deles? Assim como ocorre ao se propagar os nomes de organizações criminosas. A branquitude acrítica tem se tornado mais forte, se potencializado, ao fazer uso da Internet, isto é uma realidade. A Internet é o principal e mais poderoso veículo do presente, do futuro, digo do futuro instantâneo. Realmente, as “mídias não tradicionais” veiculadas na “rede” estão distantes das pressões que a mídia tradicional encontra. Além disso, temos que rediscutir as formas de regulação em contexto nacional e internacional das mídias de forma geral: tanto a “tradicional” quanto a “não tradicional”. Trata-se de uma questão contemporânea.

Isto seria censura? Sim? Não? Outras opções? Vamos ao debate. Enfim para citar um exemplo sobre o perigo que representa a branquitude acrítica no contexto internacional, temos como exemplo Charlottesville. Um conflito ocorrido nos Estados Unidos em 2017. Ao falar de Charlottesville, estou mencionando o episódio em que grupos de ultradireitas brancas entraram em confronto na rua com grupos antirracistas. Podemos entender o episódio como o momento em que a branquitude acrítica resolveu sair das redes sociais e partir para as ruas. Eles deixaram o enfretamento virtual para o combate de carne e osso. A questão que se coloca é a seguinte: tal fenômeno está ocorrendo no Brasil? Temos exemplos que sim? O que faremos em relação a isto? Somente fazer uso do slogan antifascista? Escrever outra carta de repúdio? Aguardar a ação do Ministro do Supremo Tribunal Federal mais aguerrido quanto a este assunto? Obviamente, não é caso do Presidente do STF da ocasião. Vossa excelência é sempre muito elegante. A sua boa educação bastará?


*Professor do Instituto de Humanidades na Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab). Doutor em Ciências Sociais pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) – Campus de Araraquara. Coorganizador do livro Branquitude: Estudos sobre a identidade branca no Brasil. Curitiba: Editora Appris, 2017

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: