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A RESISTÊNCIA DE MULHERES NEGRAS NA BAIXADA FLUMINENSE


Por Rayssa Pereira

A subjugação da mulher perpassa por todas as instâncias sociais, principalmente no caso das mulheres negras que são submetidas desde jornadas triplas de trabalho, menores remunerações, objetificação e sexualização do corpo, pouca representatividade política e maiores chances de serem assassinadas e abusadas. As histórias das mulheres negras estão permeadas por resistência, ancestralidade e luta por sobrevivência diária. Por isso, escolhemos contar um pouco da história de uma militante negra importantíssima na luta contra violência de Estado na Baixada Fluminense.

Formada em jornalismo e produção cultural, Sílvia de Mendonça também é atriz. Em Duque de Caxias, cidade onde nasceu e vive, Sílvia foi subsecretária de cultura e uma das responsáveis pela construção do Centro Cultural Oscar Niemeyer e de outros importantes equipamentos culturais na sua cidade e também na implantação de políticas públicas de cultura, como o Projeto de criação do Centro Cultural Afro Brasileiro Joãozinho da Gomeia. 

Silvia tem sua história marcada pela luta feminista e antirracista. Ativista do Movimento Negro Unificado (MNU), Sílvia também tem presença ativa nas lutas contra intolerância religiosa, juventude negra e direitos humanos, ou seja, no enfrentamento contra a violência do Estado.

Sua trajetória de luta começou quando ingressou na TV Olho, no qual foi o marco decisivo para conhecer e identificar quem eram os personagens e agentes políticos em Caxias, entre esses os grupos de matadores. Com a fundação da TV Olho em 1982, passou a entrevistar as pessoas nas ruas – e despertou a vontade de cursar jornalismo – e pessoas da militância, abordando das mais diversas questões. Já em 1985 começou a participar efetivamente de movimento popular, o MUB – Movimento de União de Bairros ou seja Federação de Associações de Moradores de Duque de Caxias em parceria com a MAB, considerando que historicamente na Baixada sempre houve ausência de direitos básicos, como por exemplo saneamento básico, acesso a água, asfalto, energia elétrica, entre outros.

Os movimento sociais foram crescendo e também contavam com o suporte que a Igreja Católica fornecia. No caso de Duque de Caxias o avanço dos movimentos aconteceram após a desvinculação da Diocese de Petrópolis, pois Dom Mauro Morelli alavancou os debates com a Teoria da Libertação na Diocese de Caxias. Os movimentos negros e as pastorais também ganharam forças devido ao eram acolhimento pela Diocese.

Através da MUB, Silvia começou a ter contatos com outros movimentos negros, dentre eles o MNU – Movimento Negro Unificado. Na questão de violência, a luta era forjada principalmente pela questão latente de violência contra as mulheres na Baixada. A luta também se dava contra o genocídio da juventude negra já que naquela época as juventudes negras moradoras da baixada eram mortas por grupos de extermínio, o que não mudou nos dias de hoje, principalmente pela política de morte do Estado.

“Hoje o pensamento é fazer o caminho inverso, viver mais, construir um projeto político em conjunto com o povo, precisamos parar de teorizar e voltar para os nossos, principalmente para a população negra, precisamos voltar a atuar com estratégias e práticas que tínhamos.”

(Silvia de Mendonça)

E sobre a questão de proteção para pessoas que lutavam contra a violência do Estado, Silvia conta que a proximidade com políticos de esquerda era estratégica e muitos desses na época frequentava terreiros e casas de santo e isso também colaborava na articulação e proteção política. Outro suporte era a Diocese, a Igreja enquanto instituição também acabava protegendo. Estar junto com pessoas de partidos de esquerda nas décadas de redemocratização do Brasil ajudava nessa discussão e como dispositivo de proteção também. 

Segundo a experiência de Silvia, uma das maiores dificuldades para se travar a luta contra a Violência do Estado e outras eram a dificuldade de mobilidade urbana. A comunicação de modo geral também era bem frágil, pois não existiam redes sociais e a mídia que temos hoje, as pessoas não tinham acesso e consequentemente não possuíam informações com relação ao que acontecia em outros lugares da cidade. Mas hoje é diferente, podemos fazer mais e ir além. 

Pensar em política de Segurança Pública para Silvia seria promover a inclusão social, o desenvolvimento econômico sustentável e a superação das desigualdades sociais e regionais. Ter melhoria da qualidade de vida da população em consonância com um programa de estruturação e implementação de um sistema integrado de combate ao crime organizado, pautado em um sistema de polícia de inteligência, melhoria da eficiência e eficácia operacional dos órgãos de combate à criminalidade.

Ou seja, seria fundar uma nova forma de sociabilidade, a construção de uma vida para além dos limites do capitalismo, do racismo e do patriarcado.

Analisar a história por meio das experiências vividas por mulheres negras redimensiona o debate e a percepção sobre o protagonismo das mulheres negras na ação cotidiana. Todas as formas de violências objetivas e simbólicas, que estamos sujeitas, estão estruturalmente organizadas porém no curso da história as insurreições aconteceram sempre para mostrar que temos sim a capacidade de organização e principalmente para além das estruturas do Estado. 


2 comentários em “A RESISTÊNCIA DE MULHERES NEGRAS NA BAIXADA FLUMINENSE Deixe um comentário

  1. Bom dia, sou Fernando Penteado Jornalista, tenho 73 anos , sempre trabalhei politicamente a favor da comunidade negra, quero louvar o trabalho desta irmã que á muito vem mostrando sua indignação como o povo negro é tratado. Ao meu ver devemos ter a nossa própria política, o nosso próprio partido devemos nos unir contra tudo e contra todos, não deveremos ser da esquerda, ou da direita, deveremos ter uma política construída por nós, sem se lucupretar em qualquer lado político, só assim teremos sucesso em nossa caminhada. Devemos ser nós por nós mesmo.

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  2. Símbolo de Resistência na Baixada Fluminense, especificamente em Duque de Caxias, Sílvia de Mendonça carrega em si, a força, a coragem, a garra das nossas ancestrais. Mulher negra que ultrapassou os limítrofes não só do nosso município mas do nosso estado. Aweto!

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