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MACEDO GRIOT: UM ALQUIMISTA DA PALAVRA NA BAIXADA FLUMINENSE


Por Monique Rodrigues

A Baixada Fluminense apresenta uma história vasta e complexa na sua formação social, racial e territorial. Os treze municípios que formam essa parte do Rio de Janeiro é cenário de muitas lutas, memórias, enfrentamentos e resistências, construído por meio da ação cultural, que traz para o protagonismo artistas dos mais diversos contextos, que dedicam grande parte do seu tempo na busca por justiça social. A Iniciativa Direto à Memória e Justiça Racial conversou com um desses personagens, o artista multifacetado MACEDO GRIOT. Morador de Nilópolis ele encontrou no caminho da griotagem sua força de expressão para a construção de outros símbolos sobre negritude e periferia.

Exposição Africanidades em cartaz na Casa de Cultura de Nova Iguaçu

Como você se denomina? Como o seu nome surge para você?

Meu nome é Edilson Macedo de Moraes. E eu sou conhecido como Macedo Griot. Eu venho lidando com linguagens artísticas desde a adolescência né, 14 ,15 anos e com a questão da cultura afro por conta da religiosidade, por que ora minha irmã está na casa de Candomblé e eu conheço a cultura afro a partir dali, ora eu tô envolvido com outras esferas de religiosidade, o Cristianismo e sua excludência, então eu pude comparar bem, e por fim, despertei para a militância. A militância no sentido da luta pela afirmação afrocentrada. Nesse contexto então eu começo a escrever, atuar e pensar com esse viés. E a comunidade afro aqui na Baixada, não sei dizer se de forma organizada, a Companhia de Jovens Griots[1] na Casa de Cultura em São João (de Meriti) começa a me chamar pra trabalhar junto, e eu sempre sou chamado para desenvolver performance que tinham o recorte com a questão da cidadania. Isso desencadeava na discussão da questão racial, porque falar em resgate da cidadania é falar de negros. Pode colocar outras pessoas e etnias no contexto que possibilite certas políticas públicas resultantes ou da discussão, mas é sempre falar de negros.

Então a comunidade começa me acolher como essa pessoa que vai lá com a linguagem artística abordar determinados temas, ora na palestra, ora na música, ora com o teatro, contação de história, e aí, eu começo a adotar o nome de Macedo Griot porque as pessoas começavam a me chamar pra desenvolver as funções da griotagem, que eu já vinha desenvolvendo sem saber. Não é só o exercício da linguagem artística com o recorte afrocentrado, é também um trabalho na busca do resgate, da pesquisa, de um mergulho na memória e identidade desse lugar.

Fiz também isso porque muitas pessoas exercem a função de griot  e não sabem que são griots, com isso eu acabo trazendo a tona um personagem que já existe no contexto das comunidades, e que as pessoas às vezes não sabem o valor que tem porque não sabe como aquilo é útil ao fortalecimento do contexto do tecido social.

A oralidade é uma característica muito importante da nossa cultura afrodescendente, como contar histórias diante os enfrentamentos do cotidiano?

Eu digo para as pessoas que quem me fez griot foi Exú, porque primeiro que o princípio de Exú está em todas as pessoas. Segundo que essa coisa de sair trilhando a estrada, do domínio da comunicação, eu nunca fiz curso, eu sou premiado com teatro, poesia, música. O domínio da linguagem, da comunicação, essa minha facilidade de ganhar o mundo, isso pra mim são influências de Exú.

Outra coisa… Eu só trabalho com história autoral, porque aqui na Baixada a minha maior clientela são de cristão, então eu gosto de trabalhar com história autoral porque não tem bloqueio.

Como você vê, diante desse cenário onde as vidas da gente estão sempre ameaçadas, a sua luta e sua atuação nos territórios da baixada?

O que me fortalece é sempre a ideia de isso aqui pode ter um desdobramento, eu hoje trabalho com a expectativa do desdobramento do que aquilo que eu estou fazendo pode ter. Falta uma conexão entre o artista e a comunidade, há um problema, que na medida que o artista começa a se destacar, ele vai se afastando da comunidade pela busca de afirmação. O artista que está na comunidade vive por uma luta por recurso, às vezes ele não vai por que não tem recurso. Você já imaginou se houvesse legislação que canalizasse recurso, sem ser a Lei Rouanet, para  as comunidades de modo que o artista, por exemplo, se ele ganha um edital ou um contrato da prefeitura, ele tem que fazer a atividade lá, e um em uma comunidade de periferia. A cultura não é você ficar fazendo showzinho na comunidade, você usa a linguagem artística pra ir lá despertar uma discussão, promover uma roda de conversa, criar um contexto onde aquela ideias possam começar  germinar. A arte ela não vai lá pra resolver, ela vai pra provocar, estimular mas precisa do compromisso do artista com a comunidade. As periferias estão cada vez mais abandonadas, aí quem vai para as periferias?

Na sua trajetória qual reflexão você faz sobre o racismo estrutural?

Há muito tempo que o movimento negro vem colocando que essa estratégia de combater o racismo de dentro das instituições para fora, isso nunca funciona. Isso nunca funciona porque quando você começa a se movimentar as estruturas racistas que você quer combater, elas já estão armadas há muito tempo, e para identificar, como nosso organismo quando o leucócito identifica o corpo estranho vai lá e ataca, antes que ele se dissemine. E é isso que acontece.

A Iniciativa Direito à Memória e Justiça Racial promove ações e debates sobre a violência de Estado com foco no racismo. Nossa experiência com a com atividades que possibilitam os debates sobre esses temas têm mostrado a potência da linguagem artística nesse processo. Quais reflexões você faz sobre a função social dos Griots nos territórios vulnerabilizados pela violência?

Um contador de histórias, ele pode passar a contar histórias até a partir de um curso ou oficina que ele faça, aprende lá alguma dinâmica e tal, pega uma história lê, e conta a história com a dinâmica e a estética que aprende, porque na oficina de contação de história você aprende a contar história com tapete, contar história com técnicas diversificadas né. Tem histórias que conta até com objetos. Agora um griot, aí sim, é uma coisa diferente, porque o griot não é só  contador de história. O compromisso do griot com a memória, com o local, a identidade, por isso os chamados griots originais, os griots em África, eles contam as histórias dos grandes personagens daquela etnia porque o objetivo ali é o fortalecimento da autoestima, do sentimento de pertencimento. Então um griot, ele antes de tudo, ele não levanta e diz, a partir de hoje eu vou ser griot. Primeiro que pra ele ser griot a comunidade tem que aceitá-lo como tal, e ele tem que cumprir funções que são de griot, e são coisas que só com o tempo vão se consolidando. Parece que você é levado para aquela condição da griotagem. Deixar de ser griot é você abrir mão do contato direto com seu povo por questões econômicas, pra atingir determinados status. O tempo vai formando um griot tempo.

Eu estou prestes a completar 60 anos, é interessante quando eu olho pra mim eu não vejo o velho que eu pensei que eu seria aos 60, entende? Não significa que eu sou um homem idoso metido a garotão, não, não é isso. Mas a minha alegria, a minha vontade de fazer as coisas, uma coisa dentro de mim, e dizem que isso é atribuído à Exu, né. Um coisa dentro de mim se nega a entregar os pontos, a sentar e jogar baralho, sabe? Quando tem tanta necessidade aí da gente estar gritando!! Também não tenho nenhuma neurose do tipo: “aí meu coroa…”, “fala meu sobrinho…” pra mim é tranquilo.

A oralidade e o trabalho coletivo são duas características presentes na arte de contar histórias que Macedo Griot carrega em si. Na Baixada Fluminense os artistas e coletivos vêem em si mesmos a maior oportunidade de realização de seus trabalhos. Nosso entrevistado faz parte do CIAFRO, Centro de Integração da Cultura Afrobrasileira, que fica em Nilópolis.

Como surge o CIAFRO?

Eu sou integrado ao CIAFRO hoje, foi uma ideia pensada a partir de um Babalorixá e uma Yalorixá, Pai Jorge de Ogunjá e Mãe Ignez de Yansã, eles tem uma casa de santo, um trabalho muito bem sucedido mas eles tem algumas inquietações com a questão da discriminação da cultura afro, então eles criaram o Ciafro, para que através do Ciafro eles pudessem fomentar essas questões, participando de forma coletiva na luta da afirmação da identidade afrocentrada, principalmente aqui na baixada fluminense. Eles me convidaram, e eu me sentir honrado, hoje eu sou diretor cultural, o Ciafro se lança fazendo trabalhos de exposições sobre o Benin, com participação do Consul do Benin, promovemos cursos, começamos as feiras afro em Nilópolis, promovendo rodas de conversa sobre a questão da mulher negra, porque a Mãe Neide de Iansã também é do Fórum de Mulheres Negras do Estado. Agora estamos em processo de esperar um edital relacionado com a baixada fluminense, porque os editais são mais para o Rio, aí é mais difícil.

E para o futuro, como o Ciafro tem pensado sua atuação na baixada?

Eu acabei de preparar um ofício para o Pai Jorge mandar para a prefeitura de Mesquita porque a gente quer fazer um fórum de memória e história lá na Chatuba. Eu estou dando uma oficina de contação de história lá na Chatuba, eu entendo que a Chatuba tem elementos que se bem trabalhados, a memória e a história do lugar, dão histórias maravilhosas. Então a gente quer fazer um encontro para trazer os anciãos, os mais velhos para contar a história do lugar, e trazer os mais jovens para que contêm os causos também. O Ciafro quer promover isso pra gente despertar essa turma para a valorização da memória. Eu acredito muito nessa questão da arte estar integrada a política pública, no fortalecimento da auto estima, e como elemento de construção de perspectiva futura no entendimento de cada indivíduo. As pessoas através da arte podem se perceber, perceber que pertencem à um determinado coletivo, que não estão sozinhas. Fortalecer esse olhar, não como solução mas como mais um componente, porque tem um costume de algumas aldeias africanas, da canção do nome, então quando uma pessoa tem uma canção ela tem mais confiança, então é preciso dar às pessoas uma canção.

Você tem um projeto itinerante chamado A SOCIEDADE SECRETA DOS TAMBORES BANTUS, fala um pouquinho sobre ele.

Aliás, A Sociedade Secreta dos Tambores Bantus, sabe porquê? A gente tem uma tendência ao imaginar o cenário da presença negra no Rio de Janeiro, a gente tem uma idéia assim, Yorubana predominante, mas a maior parte dos negros que tinham aqui eram Bantus. O escravagista considerava mais brutos, menos sofisticados, aí iam para os canaviais, e os yorubás mais cultos, ou iam para sede de fazendas. Na minha história o princípio da fofoca foi canalizado para uma rede de informações de uma sociedade secreta, destinado a influenciar na política. Aí influenciou na abolição, porque pegava informação tanto dos escravagistas quanto dos abolicionistas, para que aquelas pessoas eleitas pelo sociedade, pudesse ter a noção estratégica do que estava acontecendo e se posicionar.  Lógico que era tão secreta que nem a pessoa que recebia informação sabia de onde vinha, para justificar o fato de existir Então eu coloque “A Sociedade Secreta dos Tambores Bantus” porque é uma forma de trazer a tona que outras etnias também compunham né.

Eu tenho até uma música que eu coloco né, na contação, que é “A pedra do sal é negra”  é um samba, que diz assim, negro coração do Rio de Bantus, Angolas, Cambindas e Yorubàs. Tinham Kicongo, Kimbundu, tinham diversas etnias.

Qual leitura que você se viu representado?

Uma leitura é difícil, porque existir é um conjunto de diversas facetas, mas eu posso citar a biografia do Adbias do Nascimento, ela é muito fortalecedora. Eu estou lendo agora Caibalion – o Estudo da Filosofia Hermética do Antigo Egito e da Grécia.

Quais experiências na Baixada Fluminense te emocionou?

Tem uma coisa que me emocionou fazer quando eu era animador cultural no CIEP 330 em Miguel Couto, o documentário Vida de Mãe, nós levamos os estudantes do CIEP pra ir na casa das mães pra entrevistar as mães. Aquilo foi muito interessante e me emocionou porque o depoimento das mães era emocionado, né. Foi emocionante como griot, no resgate da memória, ter feito o Vida de Mãe. O trabalho que eu fiz com trupe Balaio Literário em Mesquita, que nós usamos elementos da contação de história para contar aspectos da história da Baixada, que vinha desde a ocupação indígena até a relação de Nova Iguaçu com Japeri. Ter feito, também, o projeto NILÓPOLIS a gente já tem 100 anos porque eu fui pra rua pra contar a história de Nilópolis. O fortalecimento da autoestima contribui para que a pessoa possa enxergar novas perspectivas.

A griotagem é exatamente isso, Não eu né, a instituição Griot nascida em África, ela já é isso, ela usa a linguagem artística,  para trabalhar as questões de memória e identidade. É lógico de uma forma simples e primitiva mas muito eficaz. O fortalecimento da autoestima contribui para que a pessoa possa enxergar novas perspectivas.

A produção artística no cenário da luta antirracista na Baixada Fluminense tem sido o meio de atuação mais forte diante as ausências de segurança pública, educação, cidadania, em uma negação total dos direitos humanos, onde a memória e a cultura negra, tão presentes nas características dessa população, estão distantes do conhecimento da maior parcela das pessoas que vivem aqui.  Nessa entrevista Macedo Griot contou histórias sobre a baixada fluminense que todos os moradores deveriam conhecer, porque são narrativas que fazem parte da história e da resistência de um povo, e que pode nos ajudar a reconectar nossa ação cotidiana.


[1] http://ciadejovensgriots.blogspot.com/

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