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GARANTIA DE MEMÓRIA COMO ENFRENTAMENTO A VIOLÊNCIA POLICIAL


Por Nívia Raposo

Douglas Brasil era muito jovem quando foi assassinado. Tinha apenas 14 anos quando foi vitimado pela violência do Estado. Douglas Brasil foi uma das 29 pessoas do crime que chocou a Baixada Fluminense. A chacina da Baixada ocorreu em 2005. Foi assassinado covardemente quando estava jogando fliperama, próximo a sua casa.

Segundo sua mãe Suzane Brasil, seu filho era um menino lindo, muito carinhoso e falante. Era o irmão mais velho de outras duas meninas, era muito agarrado a família, era torcedor do flamengo, um menino que estudava e que era muito trabalhador, apesar da pouca idade, já trabalhava numa padaria. Suzane conta que depois dessa barbárie não imaginou que uma homenagem aconteceria, como veio acontecer com a troca do nome da escola em que estudava, para o nome do seu filho…até porque haviam outras 28 vitimados, além do seu filho.

Perguntada sobre a importância de ter uma escola com o nome do filho, Suzane acredita ser muito importante sim, pois é uma forma dele nunca ser esquecido. Ela diz que sempre faz a manutenção da memória de seu filho, lembrando das coisas boas que viveu com ele, do sorriso, do jeito.

Lembra que durante um tempo vivia nas mídias, mas comenta que hoje não tem estrutura e muito menos segurança para tal coisa. Passados 16 anos de sua morte, hoje Douglas Brasil estaria completando 30 anos em junho. Suzane comenta que possivelmente já seria avó. Ela recorda que o nome da antiga escola era “Escola Municipal Emilio Garrastazu Médici”. Lembra que foram muitas pessoas no dia da “homenagem” ao seu filho.

Ali ele estudou dos 5 aos 14 anos, todo o corpo docente o conheciam desde muito pequeno.  Haviam muitos jornalistas, o prefeito na época era o Lindemberg , o pessoal da escola, a diretora Laurinha, que adorava o menino Douglas. Recorda que colocaram uma placa com o nome dele, fizeram uma homenagem e depois tiraram um pano que cobria o novo nome da escola. Foi um marco, pois a escola tinha o nome de um militar presidente da época da ditadura e mudou para “Escola Municipal Douglas Brasil”, “meu filho tinha o sonho de ser militar e morreu nas mãos dos próprios”

Suzane não acredita que um dia no Brasil levantaremos uma bandeira  do fim das policias. Ela diz: “Sinceramente, eu acredito que não, porque por trás existe muita coisa e pessoas favorecidas. Nunca irá acontecer, o racismo também não irá acabar. Por mais que os anos se passem, sempre irá existir dentro de algumas pessoas hipócritas. Finaliza  dizendo que “assim como a chacina, todos sabem que não foi apenas para matar. Teve algo e pessoas muito grande envolvidas que nunca será falada”.

A maior Chacina que ocorreu na Baixada Fluminense, completará 16 anos. Dentre os rastros de violência e destruição deixados nos trechos de Nova Iguaçu à Queimados no dia 31 de março de 2005, em meio aos 29 corpos que tiveram suas vidas interrompidas, estava também Renato de Azevedo. 

A irmã de Renato, Silvânia Azevedo, conta que seu irmão era um rapaz muito bom, carinhoso, trabalhador, começou a trabalhar novinho já que não tínhamos mais nossos pais. Renato era de poucas amizades, como todos da família, era muito reservado. Ele estava construindo uma casa para o morar após o casamento, logo assim tudo aconteceu e eu perdi meu chão. Hoje eu me pego pensando que já vai fazer 16 anos, mas é como se fosse ontem. 

A lembrança, a importância de não cair no esquecimento. Embora hoje, eu veja que as pessoas estão esquecendo muito. O mais importante não é nem que o próximo se esqueça. Mas, que eu possa realmente relembrar o dia 31 de março, pois esse dia marcou a minha vida. 

Diariamente chacinas acontecem, em maior e menor escala de mortos, e a violência torna-se o único modus operandi da Segurança Pública na Baixada. Essa lógica existe desde a escravidão, renova-se com a República e atualiza-se a cada gestão capitalista do Estado brasileiro, que reverter essas mortes em acumulação de capital e manutenção do poder, em um histórico projeto de supremacia branca. 

A IDMJR reafirma a luta contra a estrutura racista e capitalista que através do Estado promove violência, morte e sofrimento na vida da Baixada Fluminense.

Passados 16 anos da Chacina da Baixada e de cotidianamente convivermos com outras centenas de chacinas produzidas pela polícia, não seria a hora de lutarmos pela Abolição das Polícias?

Convidamos a Silvânia Azevedo pra contar um pouco sobre a luta de mães e familiares de vítimas de violência en busca de justiça e garantia de memória como forma de enfrentamento a violência policial. Confira essa conversa na íntegra no nosso podcast que será lançado hoje às 17h.


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